A cultura sobrevive na Academia

Em uma cidade como São Roque, que injeta em uma viação de ônibus dinheiro legalmente destinado à Cultura, como se viu nesta semana, em que a Câmara Municipal aprovou projeto de lei originário do Executivo que destina a bagatela de R$ 1.120.000,00 para subsidiar empresa concessionária de transporte público urbano, não causa espanto seus filhos ilustres serem reverenciados longe daqui, enquanto são ignorados entre seus conterrâneos.

Se em São Roque pouca gente ainda sabe algo sobre Antonio Joaquim da Rosa – o Barão de Piratininga – e quase ninguém tem noção de quem foi Cláudio de Sousa, a Academia Paulista de Letras tem-nos como figuras dignas do mais alto respeito e rememora suas biografias.

Soube, por meu leitor Dr. Lélio Antônio de Góes, que desde 18 de maio último a cadeira nº 19, da Academia Paulista de Letras, cujo patrono é o são-roquense Antonio Joaquim da Rosa, tem novo ocupante.

O noticiário da Academia conta que o novo acadêmico, Synésio Sampaio Goes Filho, em seu discurso de posse, “…ressaltou sua trajetória de vida, desde os estudos nas Arcadas de São Francisco, até suas passagens profissionais na carreira de diplomata. Fez extenso relato sobre os bandeirantes e as bandeiras, que foram responsáveis pelas demarcações territoriais do Brasil. (…) Também exaltou suas origens, a cidade de Itu e o indisfarçável orgulho de ser caipira. Em seguida, homenageou todos os ocupantes da cadeira nº 19 que o antecederam.”

Iniciou a dizer que “o patrono da cadeira nº 19 é Antonio Joaquim da Rosa, Barão de Piratininga (1820-1886). Nasceu e viveu em São Roque, a 60 km de São Paulo. Político regional, começou a carreira como vereador aos 24 anos, foi várias vezes deputado provincial, uma geral, e chegou brevemente a presidir a província em 1869. Bem jovem, herdou dos pais a “Loja Grande”, o maior estabelecimento comercial de sua pequena cidade. Talvez por isso não tenha cursado a São Francisco, o que não o impediu de ser um homem culto e de sofrer as mesmas influências literárias de seus contemporâneos universitários, a primeira geração romântica.”

Conta que escreveu pouco e quase só dos 27 aos 30 anos. “Dele se conhecem doze poemas, duas novelas e um romance. No prefácio da novela “A assassina” diz que escrevia para se distrair da “vida comercial, tão árida e tão prosaica”. Este título já caracteriza bem sua prosa: traições, venenos, punhais; masmorras, tocaias, cadáveres. Descreve bem os tipos do interior de São Paulo e tem grande admiração pelos paulistas de outrora. Não sei se por isso, em mais de uma vez, como em “A cruz de cedro”, o vilão é um jesuíta.

Sua ficção é misturada com personagens históricos. Não há literatura de ficção na nossa província antes de Antonio da Rosa.”
O acadêmico relata ainda: “Li parte de sua obra, visitei seu sítio, vi seu busto na Praça da Matriz e no cemitério localizei seu túmulo; na lápide uma só palavra: “Ninguém”. No passado, estava nas histórias da literatura, hoje nem nas paulistas. Injustiça? Pelo menos aqui estamos nós – e outros se seguirão – assegurando a ele esta forma precária de imortalidade acadêmica.”

Sobre o fundador da cadeira, Cláudio Justiniano de Sousa (1876-1954), diz que “nasceu também em São Roque, mas ao contrário do patrono, escreveu muito, mais de oitenta volumes, sobretudo peças e romances, e, na vila natal pouco morou. Depois de cursar Medicina no Rio, viveu entre São Paulo e esta cidade. Entrou na Academia Brasileira de Letras com 47 anos e foi duas vezes seu presidente, em 1938 e 1946.”

“A tese de mestrado de Cláudio intitula-se “Nevropatas e degenerados” e o assunto tratado influencia sua produção literária. Fiquemos apenas com seu romance mais famoso, “As mulheres fatais”, que teve 15 edições e foi traduzido em francês, espanhol e italiano. É uma obra que antigamente se chamava “forte”, não aconselhada às moças, como, aliás, o próprio autor adverte no prefácio. Trata da irresistível atração sexual de uma mulher que destrói os homens do seu entorno. Por alguma razão, o livro não teve mais edições depois da morte do autor”, relata.

Por fim, explica que “…Cláudio de Sousa se dedicou mais do que ao romance, ao teatro, área em que era um erudito, como o prova seu livro “O teatro luso-brasileiro do séc. XVI ao séc. XIX”.

A peça mais famosa, das dezenas que escreveu, “Flores da sombra”, de 1916, foi apresentada nos principais palcos do país, e o autor comparado nas críticas da época a Martins Pena, Macedo, Alencar. Chegou a ser encenada em Paris, e por Louis Jouvet, o que era o máximo para nossas elites de antes da Semana de Arte Moderna.”

É bom saber que, em algum lugar, a cultura de São Roque sobrevive e tem valor!

Texto: Simone Judica