A doçura das ervas amargas

Na lista de compras e preparativos para a celebração da Páscoa que se aproxima, por certo não consta o item “ervas amargas”.

Elas estavam, porém, entre os alimentos que os hebreus foram orientados por Deus a comer, na refeição que celebrou a primeira Páscoa judaica, naquela noite em que o Senhor, após ferir de morte os primogênitos egípcios, libertou os israelitas de quatrocentos e trinta anos de escravidão sob o domínio dos faraós e colocou-os a caminho da terra que lhes havia prometido.

A recomendação, transformada em tradição até hoje repetida e respeitada entre os judeus, tem um significado: ao sentir o sabor das ervas, as pessoas devem se lembrar do quão amarga foi a servidão sob o jugo dos faraós.

Jesus, como judeu que era, comeu ervas amargas durante a Santa Ceia, pois aquele era o dia em que o povo hebreu celebrava a Páscoa para rememorar a libertação do cativeiro egípcio.

Mais do que celebrar a Páscoa judaica e comer ervas amargas, Jesus fez-se o principal ingrediente da nova Páscoa que nascia com Sua morte.

Na simbologia pascal, um cordeiro teve o sangue vertido para com ele se marcar as portas das casas dos hebreus e assim sinalizar ao anjo destruidor que aqueles lares deveriam ser poupados, na memorável noite da matança dos primogênitos.

Com a morte e a ressurreição de Jesus, a celebração da Páscoa – até então apenas a libertação do cativeiro do Egito – ganhou um significado muito mais amplo, pois algo muito maior do que vencer um líder opressor aconteceu: a própria morte foi vencida!

E, desde aquele dia em que Jesus Cristo ressuscitou, quem crê em Sua ressurreição, recebe-O como Senhor e Salvador e deixa-se conduzir por Seus ensinamentos torna-se também livre do cativeiro e ruma para a terra prometida.

Pode soar estranho falar em ervas amargas, libertação do cativeiro e terra prometida tantos séculos depois da primeira Páscoa e a uma distância tão grande do Egito e do Oriente Médio…
É fato que há muitos séculos os seguidores de Jesus não comem ervas amargas ao celebrar a Páscoa, pois o costume perdeu-se no tempo. Todavia, os símbolos têm grande importância para auxiliar as pessoas a compreenderem o real sentido de determinados acontecimentos e situações.
Na Páscoa cristã, as ervas amargas representam a vida antes da conversão a Jesus.
Bom seria se cada um que se intitula cristão, nesta Páscoa, reservasse um momento para provar desse amargor, refletir sobre seu significado e seu passado, presente e futuro, notar como a presença de Cristo mudou e pode mudar sua vida e, certamente, alegrar-se por sentir quão doce Jesus torna a jornada daqueles que creem em Sua ressurreição.

Quem crê em Jesus e entrega a vida à Sua condução e aos Seus cuidados torna-se livre do cativeiro do pecado, do remorso, da angústia, da mágoa e das tantas penas que afligem a alma, além de ser por Ele encaminhado a uma nova espécie de terra prometida, que é a tão sonhada eternidade no céu, ao lado de Deus.
Muitas pessoas ignoram o Evangelho ou mesmo frequentam igrejas cristãs por toda a vida sem se dar conta do que Jesus fez por elas ao ressuscitar e a Páscoa é vivida e até celebrada sem a exata compreensão de sua dimensão redentora para todos e para cada um dos seres humanos. Para essas pessoas, as ervas e a existência sempre tem laivos amargos.

Mas, para quem entende de verdade quem é Jesus, compreende Sua ressurreição e cultiva a tão intensa gratidão que brota do coração de quem se vê, pelo sacrifício de Cristo, livre do cativeiro, até o amargor das ervas e da vida torna-se doçura, pois em Cristo, tudo se faz novo!
Feliz Páscoa!

Por Simone Judica, advogada, jornalista e colunista do Jornal O Democrata ([email protected])