“Ai, a bruxa vem aí”

Não me leve a mal por esta crônica, mas é carnaval, tempo próprio a extravasar, com mais folga nos freios inibitórios e mais tolerância nas críticas e nos julgamentos, o que vai pela alma.

Muita gente – maduros, crianças, viúvas, brotinhos e madames – esperou o ano inteiro para passar o Carnaval sassaricando pelas ruas centrais de São Roque, seguindo os blocos carnavalescos, ou admirando as escolas de samba, afinal, há quem reze pela cartilha de Caetano Veloso que ensina “que atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”.

Mas não vai ser bem assim. Primeiro por que apesar do muito choro, os carnavalescos, neste ano, não conseguiram mamar. A Prefeitura fez ouvidos de mercador ao coro que repetia “ei, você aí, me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí” e anunciou não haver verba para investir no carnaval de rua.

Isso, vale dizer, é mais do que compreensível, afinal, estes são tempos em que “todo mundo leva a vida no arame” e há outras prioridades para as quais direcionar o orçamento.

Bonito ver que ao invés de prosseguir na toada da marchinha e ameaçar fazer uma grande confusão, as escolas de samba organizaram-se com seus próprios recursos e parcerias e farão seus desfiles.

– E o folião que se engaja pelos blocos, por que está tão triste? Mas o que foi que aconteceu? Foi a Prefeitura que definiu e limitou o trajeto a ser percorrido pelos carnavalescos e marcou horário para o início e o encerramento de sua passagem, com a boa intenção de precaver-se dos transtornos ocorridos no ano passado, quando a balbúrdia dominou a área central da cidade, perturbou o sossego das famílias e houve confrontos entre pessoas que brincavam o carnaval na rua e a Polícia Militar.

De nada adianta bradar “eu quero é botar o meu bloco na rua”, “ó abre alas, que eu quero passar”, pois a ordem é que os blocos, desta vez, não têm vez no centro da cidade e a Praça da Matriz não será o lugar de rasgar a fantasia.

Se por um lado o decreto municipal que cerceia a liberdade dos carnavalescos soa antipático e faz os bons pagarem pelos erros dos maus, é fato que muita gente “pensa que cachaça é água” e, exageradamente abastecida com álcool e drogas, mistura-se àqueles que se divertem com responsabilidade e de modo sadio e pacífico para provocar tumultos e cometer atos de violência e indecência.

Se houvesse policiamento ostensivo o suficiente para garantir a ordem e se a polícia fosse prender os foliões beberrões e desordeiros, a Unidade de Trânsito de São Roque – pomposo nome da decadente antiga Cadeia Pública – ficaria abarrotada e não faltaria um bebum a provocar o delegado:
“Eu bebo sim, estou vivendo,
Tem gente que não bebe está morrendo…”

A verdade é que a área central não tem infraestrutura para garantir o bem-estar da população por longas horas na rua, tanto no quesito atendimento a necessidades fisiológicas e primeiros socorros quanto em termos de segurança. Se o centro da cidade já estivesse revitalizado seria outra história.

Muitos moradores e comerciantes do Centro, que sofreram com os excessos do carnaval do ano passado, externam, com muito riso e muita alegria, sua satisfação com o decreto que os poupará dos foliões.
“Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, está chegando a hora” de o Carnaval começar e o tal decreto não será revogado. Portanto, melhor para todos, a esta altura, desfraldar bandeira branca e aproveitar a festa em paz.

Mas, de fato, ninguém sabe como será o carnaval em São Roque.

Não tenho dúvidas de que “a bruxa vem aí é não vem sozinha, vem na base do saci”, pois alguns entreveros, na madrugada do último final de semana de janeiro, na Av. Antonino Dias Bastos, sinalizaram que há muita gente predisposta à baderna na cidade. Pessoas que presenciaram os fatos relatam, nas redes sociais, que houve intervenção policial, gritos, pancadaria e bombas ate o cessar da desordem!

Aos que gostam da folia, que se divirtam – nos limites do bom senso – nos salões de baile, nas ruas designadas para as concentrações e os desfiles, nas suas reuniões entre amigos e familiares ou diante da televisão a acompanhar as grandes escolas de samba.

Aqueles que, como eu, preferem ver chegar logo o recolhimento da quaresma às ousadias do carnaval, que desfrutem do silêncio e da pacatez que se espera ver reinar na cidade enquanto os foliões divertem-se à sua moda.

Bom feriado de carnaval a todos, com respeito a todos os gostos e a todas as pessoas, afinal, na quarta-feira, como diz a “Marcha da Quarta-Feira de Cinzas”, de Vinicius de Moraes e Carlos Lyra:

“Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações saudades e cinzas foi o que restou
Pelas ruas o que se vê é uma gente que nem se vê”

Simone Judica é advogada, jornalista e colunista de O Democrata ([email protected]).
Esta coluna tem o patrocínio de Pátio Corina.

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