ALAMEDA DO DESDÉM

A cada vez que o dia de finados se aproxima, lá vai a Prefeitura fazer uma maquiagem nos cemitérios da cidade. Algumas vezes o serviço é mais caprichado, enquanto outras, mal e mal se retiram uns capinzinhos mais aparentes…

O que nunca vi acontecer, até hoje, foi a Prefeitura da Estância Turística de São Roque dedicar uma atenção especial à Avenida 3, situada na Quadra 17, do Cemitério da Paz, onde jazem preciosidades históricas para São Roque, para o Estado de São Paulo e até mesmo para o Brasil.

Vou me ater a apenas três tumbas, dentre as muitas que ainda compõem o acervo de sepulturas antigas da Avenida 3.

O túmulo da família Silveira Santos é de valor histórico impressionante. Não bastasse nele haver sido sepultado o Prof. Joaquim da Silveira Santos, que em primeiro lugar registrou a história de São Roque, ao assinar a coluna “São Roque de Outrora”, no final da década de 1930, publicada nas páginas do jornal O Democrata, material esse posteriormente compilado em livro de consulta obrigatória a quem se interesse por saber das origens são-roquenses, tem todas as datas de nascimento e óbito das pessoas ali enterradas – sua esposa Amélia e seus filhos Hildebrando e Clotilde, além do casal Honorato e Maria – gravadas nos moldes do intrigante calendário positivista.

Esse registro é precioso para a história também por confirmar, no Brasil e até mesmo naquela pequenina São Roque, a expansão do Positivismo – misto de filosofia e religião de origem francesa que pregava amor, ordem e progresso e impulsionou a Proclamação da República, em 1889.

Há anos a sepultura da família Silveira Santos jaz em completo estado de abandono e com uma de suas lápides quebrada. Parte dos ossos que abrigava foram transferidos para um cemitério da capital.

Ao prosseguir na mesma avenida, vê-se o famoso túmulo do Barão de Piratininga. A diminuta lápide de mármore na qual foram gravadas, por ordem expressa no testamento do Barão, a singela e misteriosa palavra “NINGUÉM” e a data de seu falecimento – 26 de dezembro de 1886 – guarda os restos mortais do mais ilustre de todos os são-roquenses.

Está inteiro, mas mostra, no bolor que quase sempre o envolve, que não é tratado com a devida assiduidade. Felizmente recebeu limpeza e houve a pintura de sua grade há pouco tempo, por parte de alguma boa alma.

Recentemente, o acadêmico Synésio Sampaio Goes Filho, o novo integrante da cadeira nº 19, da Academia Paulista de Letras, que tem por nome o Barão de Piratininga, assegurou, em seu discurso de posse, que veio a São Roque em busca de saber mais sobre o seu patrono e visitou seu túmulo, no Cemitério da Paz, certamente intrigado com a história de que sobre a lápide havia apenas a palavra “NINGUÉM”.

– Que deve ter esse homem pensado de São Roque e dos são-roquenses, se viu o estado de abandono do túmulo de um dos mais ilustres filhos da terra?

Impossível não mencionar, por fim, o despojado túmulo do artista são-roquense Darcy Penteado, enterrado ao lado de seu pai, Ismael Victor de Campos, ex-prefeito de São Roque entre 1930 e 1933, e sua mãe, Francisca Penteado de Campos, a D. Chiquita.

Uma imagem desoladora. Nada além de um cimento adornado por uma jardineira sem flores, que teima em resistir, sem referência alguma a quem foi Darcy Penteado.

Nem falarei, aqui, dos outros túmulos tanto belos quanto significativos que existem na mesma avenida.

Já tive oportunidade de dizer, na coluna “São-roquices”, como é triste ver, ano após ano, os velhos e históricos túmulos do Cemitério da Paz substituídos por outros, padronizados em seus formatos e revestimentos, extinguindo, por completo, a memória dos antigos moradores de São Roque, fossem ilustres ou anônimos, e, assim, sepultando irremediavelmente a própria história da cidade.

Os túmulos históricos que restam precisam de preservação e isso só pode ser feito a partir de uma iniciativa do Poder Público, principalmente no caso daqueles cujas famílias já desapareceram do cenário são-roquense.

No que diz respeito às sepulturas do Professor Joaquim Silveira Santos e sua família, do Barão de Piratininga e de Darcy Penteado, chega a ser criminosa a omissão da Prefeitura da Estância Turística de São Roque, que simplesmente os deixa perecer.

O Cemitério da Paz merece ser visto, pela Prefeitura e pela população, como um museu a céu aberto, cujo acervo de túmulos históricos deve ser incondicionalmente preservado. Hoje, lamentavelmente, pouco resta das relíquias de outrora e elas precisam ser muito bem cuidadas.

Se nada se fizer, sugiro que se mude o nome da Avenida 3, da Quadra 17, do Cemitério da Paz, para “Alameda do Desdém”. Ficará muito mais apropriado.

Simone Judica é advogada, jornalista e colunista de O Democrata ([email protected])

Texto: Simone Judica