O Ator, o Terrorista e o Cinema Panfletário

De um modo geral, cineastas não são conhecidos por serem pessoas sinceras. Por exemplo, Martim Scorsese alega não ter um estilo cinematográfico próprio. Glauber Rocha, por sua vez, defendia um cinema feito com “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, enquanto que ele próprio gravava seus filmes utilizando-se de helicópteros e maquinários pesados.

Mas não se engane, esse não é o caso do Wagner Moura. Em uma recente e reveladora entrevista, o ator que deu vida ao Capitão Nascimento e que agora dirigiu um filme sobre Marighella mostrou que diferentemente de Scorsese e Glauber, ele realmente acredita em suas próprias palavras. E você quer saber? Isso é que é realmente preocupante.

Ao estudarmos a arte da narrativa, nós nos deparamos com a seguinte verdade: Na cabeça do vilão, ele é que é o herói e é precisamente aí que se encontra a raiz de toda a maldade. Isso não se aplica apenas aos filmes, infelizmente, essa regra também está presente no mundo real. Quando analisamos a vida dos piores criminosos da humanidade, tal como Hitler, Stalin, Mao, Fidel Castro e até mesmo os torturadores da ditadura militar, não encontraremos ali pessoas (se é que se pode chama-los assim) movidas pelo desejo de “praticar o mal”, mas sim indivíduos que estavam certos de estar transformando o mundo em um lugar melhor. De acordo com Wagner Moura, é perfeitamente justificável e até mesmo muito nobre um sujeito pegar em armas, assaltar bancos e matar pessoas, desde que seja para promover a igualdade e a justiça social. Mas deixemos a apologia a um homicida feita com dinheiro público de lado por um momento, pois a sinceridade brutal do senhor Moura vai muito, além disso.

A maioria dos cineastas esquerdistas do Brasil, fazem o possível para negar que suas obras possuem caráter panfletário, visando apenas promover conteúdo marxista e despertar o “despolitizado” espectador para luta de classes. Mas Wagner Moura não é como a maioria. Nada disso! Ele é categórico ao afirmar que esse é um filme que tem lado. Mais que isso, é uma obra que vem para disputar a narrativa do momento. Ocorre que diante de tal afirmação, nasce uma pergunta. Se o seu filme é basicamente uma propaganda política, por que ele deve ser considerado uma obra de arte e não apenas mais uma peça publicitária, digna do João Santana? A resposta é clara. Não deve!

Mas o filme de Marighella está longe de ser um caso isolado. Já faz muito tempo que o cinema no Brasil deixou de ser uma forma de arte para se tornar apenas uma arma política. O resultado disso são filmes pagos por todos, mas que não são vistos por ninguém e que são absolutamente irrelevantes no cenário internacional. Mas é claro que para a maioria dos nossos cineastas, a culpa desse péssimo resultado não é do produto que entregam, mas sim do imperialismo americano e da ganância das redes de cinema, que insistem em passar (pasmem vocês) filmes que atraem público. Mas sigamos com a entrevista do Wagner.

Em meio a diversas fungadas e arregalar de olhos, o ator e agora diretor afirma que o país vive um momento de extrema mediocridade. Mediocridade que segundo ele, estende-se para o campo moral, intelectual, político, etc. Em outras palavras, para o Wagner, acima da média era um presidente analfabeto e corrupto, bem como uma governante irresponsável, incapaz de formular uma frase completa. Para o Wagner, os últimos 16 anos foram uma época de florescimento da arte e da ciência no país, com a conquista de diversos Oscar e prêmios Nobel. É precisamente essa miopia moral e a incapacidade de aceitar o adversário como um ser humano que tem tornado o cinema nacional estéril e impopular.

Tipos como o Wagner Moura jamais entenderão que as pessoas que eles chamam de medíocres, fascistas, retrógradas e preconceituosas representam a maioria esmagadora do povo brasileiro e assim sendo, sentem-se profundamente afrontadas por esse tipo de narrativa. Entenda Wagner, não é o povo ou o governo que está pintando os artistas como inimigos, são esses mesmos artistas que retratam o povo como inimigos do progresso, do amor e da diversidade. Para essas pessoas, uma senhora idosa que reza o terço é uma opressora, enquanto que um terrorista, autor de um manual de guerrilha urbana, é um símbolo da verdadeira coragem e justiça, um verdadeiro herói nacional e um exemplo a ser seguido. Percebe a loucura disso?

Ao contrário do filme tido como de direita, O Jardim das Aflições, sobre o filósofo Olavo de Carvalho, que foi banido de 99% dos festivais nacionais e teve seu público agredido fisicamente, tudo leva a crer que o filme de Maringhella terá uma boa vida nos festivais. A exibição nas salas de cinema também deverá ser grande, já que a obra conta com o apoio da Globo. Sim, é a mesma rede de TV que segundo alguns, “é de direita e apoiou o golpe”. De minha parte, digo sinceramente que estou ansioso para ver esse filme, obras sobre psicopatas violentos sempre me interessaram.

Artigo: José Otávio Gurgel - Cineasta e Crítico de Cinema