Onda maneira

Da favela carioca do Pavão-Pavãozinho, o bicampeão mundial pro júnior de bodyboard Sócrates Santana encara agora o circuito profissional

por Luiz Humberto Monteiro Pereira – [email protected]

Nos últimos anos, as ondas andam favoráveis aos brasileiros. No surfe, os títulos mundiais de Gabriel Medina e Adriano de Souza, em 2014 e 2015, consagraram a boa safra de surfistas brasileiros, que passou a ser chamada de “brazilian storm” – tempestade brasileira. No bodyboard, o termo “favela storm” já é usado para designar os jovens bodyboarders que vêm das comunidades carentes brasileiras. O maior expoente é Sócrates Santana, da favela do Pavão-Pavãozinho, que fica entre os bairros de Copacabana e Ipanema, na Zona Sul carioca. Aos 9 anos, enquanto ajudava os irmãos na barraca onde a família vende bebidas na praia de Copacabana, o pequeno Sócrates aproveitava para pegar as primeiras ondas. Aos 11, conheceu o bodyboard através do projeto social Escola Guilherme Tâmega, no Posto 5 da praia de Copacabana, e começou a disputar os primeiros torneios. Em 2012, foi campeão carioca sub 16 e, em 2013 e 2014, tornou-se bicampeão brasileiro sub 16. Ainda em 2014, levou a medalha de bronze nos ISA Games, promovidos pela Associação Internacional de Surfe. No ano seguinte, foi medalha de prata na mesma competição, além de tornar-se campeão mundial pro júnior de bodyboarding. E, em novembro de 2016, conquistou o bicampeonato. “A prova decisiva foi na praia de Nazaré, em Portugal. Na ultima bateria, eu fui lá e venci a competição. Foi épico, inesquecível, memorável!”, empolga-se o jovem flamenguista.

Mas os tempos de pro júnior ficaram para trás. Agora, já com 18 anos feitos, está no Havaí treinando para a primeira etapa do seu primeiro circuito mundial de bobyboard profissional, que acontece na praia de Pipeline entre os dias 25 de fevereiro e 9 de março. Apesar dos resultados expressivos que já conquistou, Sócrates ainda não tem patrocinadores. “Esse ano, consegui uma ajuda financeira através da ONG Key to Brazil, que obteve uma doação do exterior. É muito difícil viajar e se programar com essa realidade, mas não abaixo a cabeça e corro atrás sempre que possível. E tenho o apoio da GT Boards, Wet Dreams, Posto 5 e João Ricardo Images”, pondera o jovem de jeito tranquilo. Quando não está pegando ondas nas praias de Copacabana e São Conrado ou ajudando a família na barraca de praia, Sócrates gosta de joga bola e soltar pipa.

Esporte de Fato – Agora entre os melhores profissionais de bodyboard do mundo, quais são suas expectativas para 2017?
Sócrates Santana – Venho de dois títulos mundiais na categoria júnior. Esse vai ser meu primeiro ano como profissional e vai ser uma pedreira. Tenho me preparado bastante e pretendo dar muito trabalho para os profissionais. Meu objetivo é surfar bem em todos os eventos e chegar o mais longe possível. Vai ser um ano de experiência. Vai ser bem difícil, mas vou competir sem a pressão que tinha na pro júnior. Na profissional, eu sei que sou mais um e preciso conquistar meu lugar ao sol. E competir mais “leve” é bom.

EF – Como é a sua rotina de treinos?
SS – Procuro surfar todo dia, de manhã até a hora do almoço. Quando não tem onda, corro e nado para manter a forma física. Atualmente eu estou sem treinador e treino sozinho.

EF – O que acha de mais atraente no bodyboard?
SS – A possibilidade de poder surfar as melhores ondas do mundo e conhecer pessoas e lugares incríveis. Eu sou completamente apaixonado por esse esporte. O bodyboard literalmente me move!

Esporte de Fato – Quais são seus ídolos dentro do bodyboard?
Sócrates Santana – O hexacampeão mundial Guilherme Tâmega está no topo da lista. Ele foi o maior atleta da história do esporte e tenho o maior prazer de tê-lo como amigo, mentor e apoiador. Outro atleta que tem influência é o Francirley Ferreira, que foi a minha primeira referência quando iniciei no esporte. Atualmente os maiores nomes da modalidade são o francês Pierre Louis Costes, o sul-africano Jared Houston e o havaiano Jeff Hubbard.

EF – Como é ser o primeiro atleta negro a ter seu model assinado numa grande marca internacional de pranchas, a GT Boards?
SS – Na verdade, eu fui o primeiro campeão mundial negro da historia do surfe e bodyboard. Acho que o mais simbólico não é a minha cor, mas sim o lugar de onde vim, da minha comunidade. Com muitas dificuldades, eu fui lá e consegui vencer. Consegui provar que, mesmo com tantas adversidades, é possível ir atrás e conquistar seus objetivos.

EF – Como acha que o bodyboard pode ajudar os jovens das comunidades carentes?
SS – Como o esporte me colocou no caminho do bem, ele pode inserir muito mais crianças. O esporte é uma ferramenta de inclusão social muito forte. As crianças amam a praia e o mar e o fato de poder surfar é muito bom! Só que o esporte é caro e, sem o apoio de projetos sociais, fica difícil começar sozinho. Atualmente o projeto da Escola Guilherme Tâmega funciona no Posto 5 de Copacabana com duas aulas semanais e cerca de 20 criancas aprendem o esporte. Sempre que posso vou lá surfar com eles.

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