Cargill quer digitalizar a comercialização de grãos no mundo

Há pouco mais de 20 anos, uma tecnologia mudava a maneira como os produtores brasileiros se relacionavam com compradores ou fornecedores. A chegada do sinal de telefonia móvel às zonas rurais permitiu contatos a distância. Bastava uma ligação (que precisava ser rápida, afinal, a cobrança era por minuto e cara) e, pronto, alguns contratos de compra ou venda poderiam ser negociados. Os anos passaram, e o telefone móvel virou muito mais que um aparelho para comunicação de voz. Cada vez mais, as operações das fazendas são monitoradas ou até controladas remotamente, com ajuda de aplicativos ou softwares instalados nos smartphones ou computadores. A comercialização de produtos agropecuários, porém, ainda ocorre no “gogó” e com alguns intermediários (corretores).

Mas isso está mudando, garantem os especialistas. A onda do comércio eletrônico – segmento que, no ano passado, movimentou R$ 52,5 bilhões no país e deve crescer 12% este ano, segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm) – está crescendo para cima do agronegócio e conta agora com a entrada de uma gigante do setor. A Cargill, uma das maiores tradings e processadoras de grãos do mundo, acaba de fazer um lançamento global que aponta para a digitalização do comércio agro. Ao observar uma transição entre gerações no campo, a companhia decidiu criar uma plataforma eletrônica de relacionamento com os produtores que no futuro próximo se transformará num canal de negociações.

Na primeira fase do projeto, chamado GPS, os clientes da Cargill poderão acessar relatórios de comercialização, com detalhes sobre contratos vendidos, número de negociações, programação de entrega de cargas, acompanhamento das análises de qualidades dos produtos, entre outros. É algo semelhante ao que um cliente de banco tem ao acessar sua conta corrente na internet. “É o relacionamento do dia a dia, mas em ambiente virtual. É uma adequação a um mercado que vai surgir e precisamos estar prontos. Alguns ainda estão evoluindo para o computador ou smartphones. Por isso nossa decisão de ir mais lento”, explica Ricardo Nascimento, gerente nacional da Cargill e porta-voz do projeto no Brasil.

Segundo o executivo, a ideia surgiu porque a empresa tem visto valor nessa forma de comercializar e a nova geração que está assumindo o comando das fazendas busca isso. “Os filhos são mais abertos e mais ‘digitalizados’ que os pais. Gerir ou tomar posições, vender ou comprar sem o corretor são formas mais diretas e que trazem oportunidades para os produtores. Menos papel impresso, menos visitas comerciais. Mais seguro”, resume Ricardo.

Embora a tomada de decisões ainda esteja concentrada nas mãos dos pais ou avós, a nova geração que saiu do campo para estudar e está voltando logo assumirá o controle das operações. Mas a taxa de renovação da gestão nas fazendas ainda é baixa, destaca Ricardo. “De 100% dos clientes, só uma parcela está se renovando, em torno de 30%. Desses 30% novos, 70% estão dispostos a aderir a um sistema inovador”, estima.

Atualmente, a Cargill conta com 26 mil clientes e o maior deles movimenta cerca de 400.000 toneladas de grãos com a empresa. O projeto piloto começou com 70 participantes, foi expandido e em maio chegou a 2 mil. Até o final do ano, a empresa prevê alcançar 5 mil produtores. O acesso não tem custo algum, garante o executivo. Ele diz que o próximo passo está definido, que é levar o sistema para a palma das mãos. Isso deve ocorrer em 2019. Depois disso, deve ocorrer a transformação para uma plataforma de comércio em que os agricultores farão a venda dos produtos em poucos cliques dentro da plataforma.

DESAFIO

O comércio entre empresas e fazendeiros está na categoria chamada business to business, ou B2B (que significa de empresa para empresa) e tem maiores desafios para crescer em relação aos negócios de companhias que negociam diretamente com os consumidores (business to consumer), afirma Haim Mendelson, da Universidade de Stanford (Estados Unidos). “Se você olhar os passos da evolução da tecnologia em diferentes setores da economia, o que temos é um desenvolvimento mais acelerado em áreas que chegam até os consumidores. E isso se aplica também ao setor agrícola. A tendência geral é a de que o e-commerce orientado para o consumidor, na maioria dos setores, está à frente do e-commerce business to business porque o e-commerce B2B requer uma transformação complexa e muda as relações comerciais entre todos os participantes da cadeia de valor”, explica.

Um estudo feito pela Universidade de Stanford sobre os efeitos da tecnologia na cadeia de valor do agronegócio em nível global menciona dados de 2016, segundo os quais o comércio eletrônico de alimentos foi o que recebeu a maior parcela de investimentos em agtechs de diversos segmentos do agronegócio (32%). Os negócios entre produtores e consumidores teve participação mais tímida, 3%. São meios de comércio em que o cliente pode comprar ovos, por exemplo, direto do produtor via internet. Mendelson ressalta: “não há dúvidas de que, ao longo do tempo, a maior parte das atividades que são feitas hoje por telefone ou cara a cara serão transformadas em formulários eletrônicos.”

Isso dá mais eficiência às operações, gera economia e segurança. “A melhor gestão da informação pode trazer valores como menor desperdício, maior velocidade e melhor utilização de recursos”, afirma.