“Mãe é quem cria”

O sol escaldante de janeiro, em poucas horas, minou praticamente todas as forças do filhote que, não sei se por acidente ou alguma estripulia própria da infância, despencou do teto da Igreja Metodista de São Roque.

Meus olhos custaram a reconhecer uma andorinha naquele delicado bichinho inerte. Apenas me dei conta disso quando sua mãe se aproximou num rápido voo rasante, prestou um pouco de atenção em mim e logo sumiu dentro do ninho, preparado no interior de um tijolo.

Distanciei-me e, mais do que isso, escondi-me para observar se ela acudiria o filho, alimentando-o ou arrastando-o a um local mais protegido. Duas horas depois, nada havia acontecido. Pior, ouvia-se, em intervalos cada vez menores, um miado insistente, a anunciar que um gato rondava o lugar…

Não tive coragem de sair de lá e abandonar a minúscula andorinha ao cruel destino de perecer de fome e sede ou ser presa do tal gato. Embrulhei-a em um lenço de papel e levei-a para casa.

Embora quase desfalecida, estremecia pelas picadas de pequeninos insetos que se movimentavam com insistência entre suas peninhas ainda em formação.

Minha mãe, do alto de sua experiência de quem criou dois filhos, ponderou que os bebês se sentem mais aliviados após um bom banho. E assim se fez. Limpinha e livre de seus agressores, a andorinha recobrou o ânimo, tomou água, comeu papinha de fubá e pegou no sono, em um ninho improvisado dentro de uma tigelinha forrada com algodão.

Enquanto o passarinho dormia, já me vi a tomar providências para cuidar dele. Busquei informações no mundo virtual sobre a alimentação adequada às andorinhas e a possibilidade de sua reinserção na natureza, pois não me agradava a ideia de mantê-la para sempre cativa. Queria-a somente como uma hóspede que, tão logo estivesse apta, bateria asas céu afora, para encontrar-se com outras aves e junto delas desfrutar do maravilhoso dom de voar e pousar onde tivesse vontade.

Com o passar dos dias, a andorinha ganhou nome: Abel. Ganhou mimos, como uma papinha especialmente desenvolvida para filhotes de pássaros, receitada por meu afilhado Elvis, e que foi presente de meu noivo Marcos. Ganhou regalias, como dormir deitada na minha mão para, somente depois de pegar profundamente no sono, ser colocada em seu ninho caseiro.

Sobretudo, a andorinha ganhou meu coração. Minha rotina diária foi alterada e desmarquei compromissos para estar em casa de três em três horas para alimentá-la, pois o bebê Abel só comia a porção inteira de papinha se eu desse. Quando outra pessoa tentava alimentá-lo fazia manha, não abria o bico e escondia a cabeça debaixo da asa, cada dia mais emplumada.

Abel encorpou, emplumou e aprendeu a fazer gracinhas, como todo bebê! Cada dia me brindava com uma novidade. Um dia começou a piar, outro a saltar do ninho para a borda da tigelinha, uma noite resolveu dormir em um pé só e assim se desenvolvia, de modo a um só tempo singelo e surpreendente.

Não bastasse tudo isso, olhava para mim com seus olhinhos pretos brilhantes e derretidos de amor, como se visse em mim sua mãe.

E por incrível ou tolo que pareça, era exatamente assim que me sentia. Era como se eu vivesse o sentimento expresso naquele velho ditado, de que “ser mãe é padecer no paraíso”. O paraíso era o convívio terno e amoroso com a andorinha e a sensação de que estava contribuindo para que ela pudesse exercitar seu maior dom, o de voar. Já o padecer era imaginar como seria doloroso soltá-la para que ganhasse o mundo e provavelmente nunca mais avistá-la…

Na véspera de completar um mês de sua chegada, Abel jantou a papinha e dormiu embalado em minha mão, mas, ao ser colocado no ninho, não quis ficar. Agarrou seus pezinhos frágeis aos meus dedos e não havia o que o fizesse soltar. Pensei que fosse manha, mas era uma despedida.

Permanecemos assim, agarradinhos, até que ele pegou no sono, muito tempo depois. Pela manhã, encontrei seu corpinho sem vida no ninho, exatamente como eu havia deixado.

Abel havia voado para o céu dos bichos.

Deixou-me as saudades e a certeza de que mãe, de fato, não é quem traz ao mundo, mas quem cria alguém como filho.

Depois do banho, a andorinha recobrou o ânimo, tomou água, comeu papinha de fubá e pegou no sono, em um ninho improvisado. (Simone Judica)
Simone Judica é advogada, jornalista e colunista de O Democrata ([email protected])