Muito além das bruxas

Neste ano, a ênfase dada pela mídia à inconsequente comemoração do “dia das bruxas” cedeu lugar à divulgação do evento celebrado em 31 de outubro que verdadeiramente importa à história: os 500 anos da “Reforma Protestante”.

Muito mais do de que bruxas, demônios e outros seres das trevas importados de uma cultura que não integra as raízes brasileiras, 31 de outubro é dia de recordar o gesto corajoso do monge católico Martinho Lutero que, nessa mesma data, no ano de 1517, na pequenina cidade alemã de Wittenberg, afixou nas portas da catedral da cidade as chamadas 95 teses ou institutas, por meio das quais questionava e combatia os excessos da Igreja Católica Romana e proclamava que a salvação do ser humano não provém do pagamento de indulgências e penitências, mas, sim, da graça de Deus, razão pela qual é gratuita e acessível a todos que crêem que Jesus Cristo é o único Senhor e Salvador, como ensina a Bíblia.

Lutero pretendia, ainda, que todos tivessem acesso ao conteúdo da Bíblia e as celebrações fossem realizadas em idioma local, compreensíveis por todos os fieis e não somente por padres conhecedores do latim.

As portas das igrejas, àquela época, faziam as vezes da imprensa e das redes sociais de hoje, pois nelas eram pregados avisos e notícias.
A mensagem que Lutero afixou na entrada da catedral repercutiu imensamente e sua postura rendeu-lhe a excomunhão e abriu as portas da prisão religiosa em que inúmeras pessoas eram mantidas cativas sob o jugo da ignorância e da dominação que lhes era imposto, com vistas ao enriquecimento ilícito do clero.
Esse episódio é considerado o marco do movimento religioso chamado de “Reforma Protestante”, que foi ganhando inúmeros adeptos, pois havia outros inconformados com a posição da Igreja Católica Romana de vender o perdão de Deus, as mal afamadas indulgências.

A partir da Reforma nasceram diversas denominações religiosas cristãs protestantes que vêm se expandindo pelo mundo e chegaram a São Roque.

Conforme relato recente na coluna “São-roquices”, em São Roque, a Igreja Metodista, fundada em 18 de julho de 1899, é apontada como a pioneira no protestantismo local, segundo o Professor Joaquim da Silveira Santos, na obra “São Roque de outrora”.

Desde a chegada dos primeiros metodistas na cidade, o movimento cristão protestante ou evangélico cresce a olhos vistos. O último censo divulgado pelo IBGE assegura que em 2010 havia 16.069 evangélicos em São Roque, ao lado de 51.616 católicos e 2.998 espíritas, sem dados para outras religiões e ateísmo.

“Não é possível precisar o número de igrejas evangélicas estabelecidas em São Roque, pois nem todas estão devidamente oficializadas e, embora convidadas, nem todas aceitam se filiar ao Conselho, que conta com dezessete igrejas representadas, desde as mais antigas na cidade, como as denominações Metodista, Assembleia de Deus, O Brasil para Cristo e Adventista até as mais novas, como a Comunhão Rara e a Bola de Neve, por exemplo”, destaca Paulo Sérgio Eugênio, pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular e presidente do Conselho de Pastores da Estância Turística de São Roque.

O pastor Paulo Eugênio ressalta a importância de, “…independentemente da denominação religiosa, os cristãos se unirem a favor do bem-estar da coletividade e da construção de uma cidadania cristã plena, ou seja, da possibilidade real do exercício dos direitos e deveres civis garantidos pela Constituição e pautados nos valores expressos na Palavra de Deus. É exatamente nesse sentido que o Conselho de Pastores atua. Apartidário e apolítico, o Conselho tem a finalidade de servir, no sentido de apoiar as causas justas e éticas à luz da Palavra de Deus e da Constituição, orar pelo bem da cidade e da população e realizar aconselhamento espiritual”.

Criado em 1999, o Conselho de Pastores, além de suas ações cotidianas de apoio a pastores em suas dificuldades e iniciativas, buscou a edição das leis que instituíram a comemoração do Dia do Derramamento do Espírito Santo em 16 de agosto e a Semana da Cultura Cristã, entre o terceiro e o quarto sábados de agosto, que termina com a Marcha para Jesus pelas ruas de São Roque, como forma de integrar o segmento evangélico à comemoração do aniversário da cidade. Em 2015, ao lado da comunidade católica, lutou com sucesso contra a aprovação da “Ideologia de Gênero” no Plano Municipal de Educação de São Roque.

“O Conselho promove também a Semana Evangélica, em dezembro, e ao longo do ano desenvolve ações sociais em favor de pessoas necessitadas, com arrecadação e distribuição de alimentos, orientações de saúde e realização de exames e cortes de cabelo e barba. Sempre que possível, são feitas visitas a instituições e repartições públicas com o intuito de pregar a Palavra de Deus e orar por autoridades e funcionários. Uma vez por mês fazemos uma vigília de oração e percorremos a cidade em uma carreata silenciosa, orando para Deus abençoar São Roque e a população”, conclui o pastor Paulo Eugênio.
Amém!

Simone Judica é advogada, jornalista e colunista de O Democrata ([email protected])

Texto: Simone Judica