O formidável sonho de Vasquinho

“Vasco Barioni, o teu sonho FORMIDÁVEL permanece vivo”, diz o quadro colocado em lugar de destaque à entrada do Centro Cultural Cine São José. Ao lado dos dizeres, vê-se Vasquinho retratado na década de 1940, por Romolo Lombardi, conhecido nacionalmente como “o mago dos cenógrafos”.

O sonho de Vasco Barioni era grandioso. Melhor dizendo, era coisa de cinema: no final dos anos 1940, sem ter terreno ou dinheiro, decidiu construir um cine-teatro em São Roque, onde coubessem 1.500 pessoas sentadas. Coisa de visionário, para não dizer coisa de louco.

O sonho tirou-lhe o sono, pois não pensava em outra coisa que não fosse o tal cine-teatro.

Enquanto uns desdenhavam do sonho e do sonhador, outros sonhavam com Vasquinho e, mais do que isso, trabalhavam com ele para a concretização do empreendimento.

O sonho ganhou endereço, forma e nome. Na esquina da antiga Travessa do Teatro com a Rua Rui Barbosa, onde jaziam as ruínas do velho Theatro São João, um moderno e arrojado projeto arquitetônico foi edificado por incontáveis mãos e inaugurado em 19 de março de 1951, com a exibição do filme “Deus lhe pague”, título alusivo à gratidão de Vasquinho a todos que o auxiliaram a tornar real o Cine São José.

O novo cine-teatro, com instalações amplas, bonitas e confortáveis, tornou-se o local mais frequentado e apreciado da cidade, ponto de encontro de amigos, celeiro de amores, espaço cultural sempre palpitante, até que novos hábitos e entretenimentos roubaram-lhe o público, como aconteceu com todos os grandes cinemas brasileiros.

Após heroica resistência para mantê-lo de portas abertas, Vasquinho sucumbiu à realidade e fechou o Cine São José em 1998. Contudo, não deixou de sonhar e, mais ainda, fez germinar a semente de seu sonho em seus sucessores.

Essa nova geração de sonhadores atende pelos nomes de Arthur e Sissi Barioni Bembom e sabe muito bem a que veio. Os netos de Vasquinho vieram para resgatar o sonho do avô, dar nova vida ao velho Cine São José e devolver à cidade e aos são-roquenses esse patrimônio legendário.

Teto desabado, escombros por todos os lugares, infestação de pombos, orçamentos milionários para restauração do espaço, dificuldades para atender às novas exigências do poder público para concessão do alvará de utilização do prédio, palpites inoportunos e pessimistas e uma infinidade de minúcias desanimadoras não arrefeceram os ânimos de Arthur e Sissi que, no último dia 14, inauguraram oficialmente o Centro Cultural Cine São José.

O projeto é tão amplo e ousado quanto foi o sonho de Vasquinho. E, a julgar pela primeira etapa executada, o Cine São José Café, o Centro Cultural promete ser formidável e arrebatar os são-roquenses, tornando-se o novo ponto de encontro da cidade e parada obrigatória para os turistas, numa inequívoca e promissora valorização da área central de São Roque, tão carente de atrativos.

A “avant-première” do dia 14 foi cinematográfica, não somente porque contou com o prestígio de Charles Chaplin, Marilyn Monroe e Gene Kelly e foi abrilhantada pelo conjunto musical Guga Stroeter & Quarteto Heartbreakers, com seu repertório de trilhas sonoras dos clássicos do cinema, mas, principalmente, pelas lembranças e emoções que fez aflorar em todos os presentes e pelo final feliz que anunciou.

A noite que marcou a inauguração do Centro Cultural Cine São José remoçou Tia Íris Barioni, deixou mais vívidas do que nunca as saudades de Vasquinho em seus amigos de sempre – Murillo Silveira, Zé do Nino e José Henrique Campos de Oliveira – e despertou uma nostalgia quase palpável nos convidados e, como nos velhos tempos, adoçou a todos, com aquele singelo, porém mágico e singular sabor da groselha, que até hoje nutre as memórias afetivas dos são-roquenses que viveram no velho Cine São José capítulos marcantes das histórias de suas vidas.

O saguão preservado e restaurado com as mesmas características do Cine São José dos tempos de Vasco Barioni, agora transformado em café, continua a ser uma espécie de portal pelo qual se ingressa no mundo dos sonhos.

Antigamente, do outro lado da cortina havia a grande sala de exibições, onde milhares e milhares de pessoas sonharam diante da tela e do palco.

Hoje, do outro lado da cortina há o futuro, que continua sendo um sonho formidável e a um passo de ser realizado por inteiro.

Há tempos São Roque carece de um espaço adequado e diferenciado para receber mostras de cinema e teatro, debates culturais, balés, exposições e tantos outros eventos. O novo Cine São José, charmoso, aconchegante e na melhor localização possível, com sua atmosfera de sonho e arte, tem tudo para preencher essa lacuna, e de maneira formidável, como sonhou Vasquinho.

Por Simone Judica, advogada, jornalista e colunista do jornal O Democrata ([email protected])