Os primeiros crentes

No dia dois de setembro se comemorou o aniversário de 150 anos da chegada do Metodismo no Brasil. Em São Roque, a Igreja Metodista existe há 118 anos e é apontada como a pioneira no protestantismo local, segundo o Professor Joaquim da Silveira Santos, na obra “São Roque de outrora”:

“As primeiras visitas de ministros do Evangelho deram-se aqui pouco antes ou pouco depois da Proclamação da República. Não me consta que houvesse em São Roque adepto algum do protestantismo (…)Sei porém que a propaganda tomou impulso depois da conversão do Sr. Miguel Weishaupt. Viera ele de Itapecerica e aqui estabeleceu-se com tenda de ferreiro. (…)Descendente de alemães, era natural que as tendências ancestrais o chamassem para o protestantismo, e assim, logo após as primeiras pregações, se tornou adepto fervoroso das doutrinas evangélicas, no que foi seguido por toda a família. (…)O núcleo que então se formou foi aumentando com a mudança para aqui do Sr. José Crem, cunhado do Sr. Weishaupt, sendo ele e os seus igualmente filiados ao protestantismo. (…) se organizou aqui a Igreja Metodista em julho de 1899. (…) a igreja possui sede própria no modesto templo situado no Largo da República, a cargo do Prof. Mário Aguiar”.

As origens do Metodismo remetem à Inglaterra do século XVIII, mergulhada em profunda crise social, apatia religiosa e decadência moral, onde operários e mineiros, fossem homem, mulheres ou crianças, trabalhavam dezesseis horas por dia em condições as mais precárias, mal alimentados e com frio, em troca de um salário minúsculo e insuficiente para lhes matar a fome, enquanto nobres e industriais esbaldavam-se em fartura e luxo.

Inconformados com esse quadro, alguns estudantes da Universidade de Oxford, liderados pelos irmãos Charles e John Wesley, fundaram o “Clube Santo” para cultivar virtudes cristãs, entre as quais estavam estudos bíblicos, orações, jejuns, visitas a presos e enfermos e socorro aos pobres. O rigor na organização e no cumprimento dessas práticas trouxe aos rapazes desse grupo o apelido de metódicos ou metodistas.

O apelido “pegou”, assim como os costumes do Clube Santo, que conquistavam mais adeptos a cada dia e difundiam-se pela Inglaterra e por outros países, por onde ganhava sentido a ideia de John Wesley, de que “o evangelho de Cristo não conhece religião que não seja religião social, não conhece santidade que não seja santidade social”.

Historiadores afirmam que o impacto produzido pela intervenção dos metodistas na Inglaterra, tanto no combate às injustiças sociais e ao alcoolismo quanto na promoção da educação e na difusão dos princípios evangélicos, foi vital para poupar o país de uma revolução armada, nos mesmos moldes da revolução francesa de 1789. “O Metodismo foi o antídoto ao Jacobinismo”, afirma o historiador francês Elie Halévy, no livro “História do povo inglês no século XIX”.

No Brasil, o Metodismo chegou a partir de missionários vindos dos Estados Unidos em 1835, que realizaram trabalhos itinerantes, interrompidos em 1841. O primeiro pastor metodista permanente, J.E. Newmann, também norte-americano, aqui desembarcou em 1867, movido pelo desejo de acompanhar famílias metodistas do Sul dos Estados Unidos que, ao término da Guerra Civil Americana, migraram com suas famílias para cá. Em pouco tempo, a cidade do Rio de Janeiro foi eleita como a sede da igreja e o trabalho expandiu-se Brasil afora.

Após 32 anos, em 18 de julho de 1899, estava fundada a Igreja Metodista em São Roque. A falecida Sra. Maria Fischer de Oliveira, nos anos 1990, com base em pesquisas documentais e entrevistas com descendentes dos fundadores da igreja em São Roque, fez eco às palavras do Professor Silveira Santos e identificou os primeiros doze membros da comunidade que se formava: João Ferreira de Meneses; Miguel e Rita Weishaupt Bicudo; Manuel Oliveira Rosa; Antônio Messias Ribeiro; Frederico, Carmelina e Madalena Weishaupt; Custódia A. Oliveira; Vicentina Maria Rosa; Vitorino e Catharina Vieira Pontes.

Os primeiros cultos aconteciam na casa de Miguel, na atual Travessa Xavier, no Centro. Em breve a igreja passou a reunir-se na Rua Rui Barbosa, atual nº 180, para onde a família de Miguel havia se mudado.
“Por volta de 1910, devido à proximidade com a Igreja Católica, a Casa de Oração Metodista sofreu forte preconceito religioso, na época ocorrendo conflitos entre os mais fanáticos, conflitos esses que contribuíram para os metodistas resolverem adquirir uma propriedade mais isolada. (…) Foi comprado um terreno na atual Rua Enrico Dell’Acqua, um tempo depois permutado com um terreno localizado na Praça da República, onde atualmente situa-se o templo”, completa Maria Fischer em texto publicado no boletim da Igreja Metodista de São Roque, no ano de seu centenário.

Vencidos os tempos de intolerância, a Igreja Metodista conquistou seu espaço na cidade e consolidou-se como um importante marco de propagação da fé cristã em São Roque e região, dando origem às igrejas de Mairinque, Ibiúna e Araçariguama.