Pobres plátanos

Por uma infeliz coincidência, o Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho,  foi marcado, em São Roque, por um intenso e desagradável zunir de serra elétrica acompanhado dos repetidos estrondos dos galhos dos pobres plátanos da Av. John Kennedy que, em série, mutilados pela máquina barulhenta e impiedosa, despencavam no chão.

Mais uma vez, as árvores que compõem a alameda de plátanos, no entorno do ribeirão Aracaí, foram vítimas de uma ação na qual não se percebe a devida preocupação em minimizar a quantidade de galhos retirados, conforme demonstra o acúmulo deles no chão, tomando a calçada por inteiro. Simetria entre os ramos que ficavam e saíam também não era o forte da operação de poda, como qualquer pessoa pode notar, ao olhar para o resultado do trabalho.

Segundo informou um dos trabalhadores no local, o serviço foi realizado por empresa terceirizada, contratada pela Prefeitura da Estância Turística de São Roque.

A poda, desta feita, contemplou as árvores situadas na calçada ao lado do fórum e da agência do INSS.

No mês de maio, a vegetação da mesma Av. John Kennedy, porém do outro lado da rua, nas imediações da Creche Amazília Ribeiro Lopes e do Centro de Saúde, foi alvo dos cortes. O modo exagerado e disforme com que os galhos eram extirpados dos pobres plátanos chamou a atenção da população e, de acordo com notícias veiculadas em mídias digitais da cidade, o vereador Alexandre Pierroni questionou ao poder público municipal a legalidade da poda, nos moldes drásticos em que vinha sendo realizada, o que levou à suspensão do trabalho.

É sabido que árvores de grande porte e fiação das redes elétrica e telefônica não são uma boa combinação. Essa incompatibilidade entre vegetação e fios é o argumento em regra usado em defesa das podas agressivas.

Não se discute a necessidade de podas periódicas e é importante a Prefeitura assumir essa responsabilidade.

Todavia, é preciso haver uma atenção maior quanto ao modo como esse trabalho é feito.

Quem determinou o plantio de plátanos em São Roque, por certo não avaliou bem o impacto dessas árvores, a longo prazo, no cenário urbano local. Por aqui, as calçadas são estreitas e não há previsão, sequer em futuro muito longínquo, de substituição da fiação aérea pela subterrânea.

Mas, já que as árvores estão aqui, o melhor a fazer é aprender a conviver com elas, respeitando seu porte, sua estrutura e, principalmente, seu direito à vida plena.

Isso, naturalmente, exige planejamento. O trabalho de manutenção e poda precisa revestir-se de critério científico e estético para que as árvores, vistas de perto ou de longe, não percam a harmonia indispensável à visão de cada uma delas em particular e do conjunto que uma alameda deve ter.

Há que se respeitar o formato natural das árvores, o estilo de corte que lhes é adequado e  sua adaptação à convivência segura com a fiação. Não basta desbastar-lhes os galhos. É preciso fazer isso com esmero e talento, para a vegetação não ficar com o triste aspecto de mutilação e o trabalho de poda não ser considerado um serviço mal feito.

Ao falar em poda, é indispensável, também, observar se os cortes são feitos na época apropriada. Não me atreverei a dizer se maio e junho são os meses mais pertinentes para isso. No ano passado, quem podou os pobres plátanos da Av. John Kennedy foi a CPFL, e o serviço, de péssima qualidade e extremamente mal feito, ocorreu em janeiro e deixou-os com um aspecto que causava um misto de pena e revolta.

Conclui-se, pois, que por aqui, cada um poda quando e como quer, restando às árvores, após cada intervenção humana, brotarem novamente para, logo mais, quando estiverem copadas e viçosas, serem mais uma vez danificadas.

A poda feita de modo correto promove revitalização das árvores e é capaz de dar-lhes o formato que se deseja, sem prejuízo a sua estrutura e formosura. Isso é um trabalho quase artístico que, levado a bom termo, embeleza a cidade e promove equilíbrio ambiental.

Enquanto se preferir apenas defender os fios em detrimento das árvores, as podas serão feitas de maneira agressiva e sem um compromisso real com sua importância ecológica e estética.

Não custa lembrar que as podas de árvores devem obedecer à legislação ambiental, que vale igualmente para os particulares e o poder público.

É certo que nem tudo o que é feio é crime ou contravenção e passível de algum tipo de punição. Porém, o que enfeia a cidade atinge a toda a população que, portanto, tem direito de externar seu desagrado.

Como moradora de São Roque, não posso deixar de dizer que, para o meu gosto, a poda das árvores da Av. John Kennedy é exagerada e veio em má hora, pois, além de tirar-lhes a maior parte das copadas, priva os pedestres de sentir sob os pés o tapete de folhas que, no outono, esses plátanos gentilmente oferecem a quem caminha sob seus galhos.

Autor: Simone Judica