A indústria do crime, por trás dos celulares roubados no Carnaval

O noticiário do Carnaval, mais uma vez, foi recheado de relatos sobre roubos e furtos de celulares nos blocos de rua em São Paulo. Só que a farra do crime não acaba na Quarta-feira de Cinzas. É ativa o ano inteiro, parte de um gigantesco mercado ilícito que age e cresce livremente em São Paulo.

Em 2016, segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, 62% dos roubos do Estado envolveram celulares, algo em torno de 200.930 aparelhos – sem contar os casos que não são notificados. E ainda há os furtos e o contrabando. O mercado ilícito de celulares no Estado de São Paulo envolve algo em torno de 1,5 milhão de aparelhos por ano. É uma verdadeira indústria do crime.

Apenas o setor ilícito de eletrônicos, que inclui os celulares, movimenta pelo menos R$ 1,47 bilhão por ano no Estado, valor que cresceu 39% entre 2010 e 2015. Os dados são do Observatório de Mercados ilícitos da Fiesp, que mensurou em 2016 o tamanho de 9 mercados ilícitos (veículos, eletrônicos, cigarros, alimentos, brinquedos, medicamentos, químicos, higiene e vestuário), compostos por produtos roubados, furtados e contrabandeados. Cada celular, veículo ou maço de cigarro roubado ou contrabandeado é parte dessa enorme e brutal economia criminal.

Não adianta culpar o Carnaval, a crise econômica ou as variações estatísticas pelos roubos. O fenômeno é estrutural e complexo, ligado aos mercados ilícitos em São Paulo. São bilhões de reais que financiam armas ilegais e a corrupção de agentes públicos e alimentam o lucro de organizações criminosas responsáveis pela violência urbana, que ceifa vidas diariamente.

É impossível que o Governo não saiba o tamanho do desafio, mas ele pouco discute e nada faz para enfrentar o problema. É preciso agir, para salvar vidas, preservar empregos e dar à população tranquilidade para pular o Carnaval – e para estudar, trabalhar e fazer o que quiser no ano todo. A polícia, claro, tem papel importante, mas o Governo tem que arregaçar as mangas para atacar com força total os mercados ilícitos em todos seus aspectos. Sem isso, o bloco do crime vai continuar na rua.

Paulo Skaf – Presidente da Federação e Centro das Indústrias do Estado de São Paulo.