Redes sociais vêm sendo usadas para espalhar falsas informações

Na história da humanidade, nada evoluiu tão rápido quanto o campo da informática e tecnologia. Tal progresso modificou profundamente a maneira como nos comunicamos atualmente nas áreas urbanizadas. Se antes era preciso percorrer vários quilômetros para encontrar um amigo, hoje fazemos amizades ao redor do planeta, em minutos e sem sair de casa.

Essa agilidade e praticidade alterou profundamente a maneira pela qual as pessoas recebem e transmitem informações. Segundos são suficientes para a propagação massiva de notícias ou boatos que servem aos mais variados interesses, sejam eles políticos, financeiros, caluniosos ou até justos e verdadeiros.

Junto com o avanço das redes sociais na vida das pessoas, há essa onda de compartilhamentos e leitura de notícias sem o devido cuidado para tratar da veracidade ou confiabilidade da informação, transformando a internet num mar de notícias falsas: as chamadas “Fake News”.

No Brasil, a imensa maioria dos dados da internet circula pelos aplicativos Whatsapp e Facebook. Os responsáveis por estes recursos tentam, já há algum tempo, evitar que estes e outros meios sejam usados para a propagação de inverdades ou mesmo discursos de ódio travestidos de informação falsa, há consenso de estes falsos perfis só alimentam a desinformação e a revolta da sociedade.

Em entrevista exclusiva ao Jornal O Democrata, o historiador Leandro Karnal, disse que as redes sociais acabaram potencializando a intolerância. E que eles são reflexos da nossa sociedade, que acabam estimulando os comportamentos mais odiosos e polarizados.

“Antes era preciso ler livros para criar estes ódios. Mesmo para um homem médio da década de 1930, ele precisava comprar o Mein Kampf de Hitler e percorrer suas páginas mal redigidas. Ao final, seus vagos temores antissemitas eram embasados numa nova literatura com exemplos e que fazia sentido no seu universo. Mesmo assim, havia um custo: um livro.

Hoje é um clique e um site, com muitas imagens. Facilitamos muito para quem odeia. O ódio tem imenso poder retórico. Ele sempre existiu. Agora, existe este ódio prêt-à-porter, pronto, onde você se serve à lá carte e pega seu prato preferido.

Exemplo? Uma pessoa me disse: “Quem descumpre a lei deveria ser fuzilado! Bandido deveria ser executado”. Eu argumentei: “Pela sua lógica, descumprimento da lei merece pena capital. Como a lei brasileira proíbe a pena capital, você está defendo crime e incitação ao crime, na sua lógica, deveria ser punida com pena de morte.” Era uma maneira socrática de argumentar a contradição do enunciado. O caro leitor pode supor que a resposta do indivíduo não foi socrática nem platônica”, disse Karnal.

Bolhas informacionais

Muita gente se depara com elas nas redes sociais todos os dias, os algoritmos (sistema que identifica aquilo que você busca na internet; aquela “coincidência” de anúncios de sites e hotéis que aparecem como propaganda depois que você procurou “salvador” no Google) acabam reforçando opiniões, oferecendo mais daquilo que sobre o que já se acredita e isso favorece, de certa forma, as informações equivocadas e mentirosas.

“A bolha informacional e seus respectivos algoritmos constituem uma zona de conforto para o navegador do ciberespaço. Importante dizer: para o mercado, o consumidor (independente de sua posição política) compra da mesma forma, então o algoritmo informa qual o perfil do cliente.

Quem deseja ler a biografia de Obama ou de Trump vai ao mesmo site. O que não mudou nos últimos séculos é que a verdade comercial é superior ao debate epistemológico de validação ou não do que é verdadeiro. Petralhas e coxinhas compram; isentões também. Resta a pergunta que não quer calar: qual a importância do debate sobre posição política sob este prisma? O que de fato importa para quem de fato manda no mundo?”, comentou o historiador.

Fake News na política

Cerca de 12 milhões de pessoas difundem notícias falsas sobre política no Brasil, de acordo com levantamento do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai) da Universidade de São Paulo (USP). Se considerada a média de 200 seguidores por usuário, o alcance pode chegar a praticamente toda a população brasileira. O dado é resultado de um monitoramento com 500 páginas digitais de conteúdo político falso ou distorcido no mês de junho.

Pesquisadores das diversas áreas ligadas ao assunto, como Ciência da Computação, Ciência Política, Comunicação e Direito, são unânimes em afirmar que as notícias falsas podem ganhar bastante protagonismo na próxima disputa presidencial brasileira, com potencial de alcance maior do que as informações de fontes reconhecidas como confiáveis. “No atual momento, a polarização ideológica coincidiu com o consumo de notícias sobre política por meio das redes sociais. Quanto mais manchetes se prestam a essa informação de combate, maior é a performance delas, o que acaba por corroer o sistema como um todo, poluindo o debate político”, avaliou o cientista político Pablo Ortellado, um dos coordenadores do Gpopai.

Desconfie das redes sociais

Trazendo o tema para São Roque, já é possível observar parte da população que acredita, comenta e compartilha postagens falsas, falaciosas ou, simplesmente, sem fontes confiáveis. Toda semana tem um boato novo sendo “viralizado”. Seja uma cartilha sobre sexo sendo distribuída pelo governo ou uma lei nova tirando algum direito fundamental, o feed de notícias sempre com pessoas compartilhando de portais estranhos ou praticamente desconhecidos, geralmente com alta dose de indignação.

O prefeito Cláudio Góes que muitas vezes é alvo de perfis duvidosos e de notícias falsas disse em entrevista ao Jornal O Democrata, que as pessoas devem ficar atentas a estas postagens.
“Os perfis falsos que distribuem falsas informações não têm outra intenção ou interesse a não ser ficar fazendo a balburdia e causar mal estar com intuito de se beneficiar de forma politicamente egoísta. Eles não pensam na sociedade em geral, mas em algum proveito pessoal.

Nesta semana, um caso envolvendo um carro da prefeitura teve grande repercussão. Não há nada de errado em fiscalizar, fotografar e cobrar o poder público. Mas antes de formar uma opinião é sempre necessário escutar os dois lados, como fazem os veículos de comunicação sérios. Afinal de contas, eles respondem até judicialmente por isso, ao contrário de quem se esconde por trás da internet.

Existem veículos de imprensa, com profissionais formados que trabalham duro, para trazer de forma clara e imparcial as notícias a população são-roquense, e as pessoas não precisam acreditar em blogs, sites duvidosos ou em grupo de pessoas nas redes sociais que só querem trazer discussão, ódio e mentiras. Muitas pessoas se aproveitam da velocidade e ingenuidade das redes para alavancar seus interesses próprios”, desabafou Góes.

Novas leis

Além das plataformas digitais começarem a se blindar, novas leis devem enquadrar quem divulgar notícias notadamente falsas sobre assuntos relacionados à saúde, segurança pública, economia nacional, processo eleitoral ou que afetem interesse público relevante. É o que prevê o Projeto de Lei do Senado 473/2017, que aguarda a designação de relator na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) e poderá punir com penas de detenção ou reclusão quem infringi-la.

O projeto, do senador Ciro Nogueira (PP-PI), estabelece pena de seis meses a dois anos de detenção no caso da simples divulgação das chamadas “fake news”. Caso essa divulgação seja feita por meio da internet, a pena passa a ser de reclusão de um a três anos. E se a prática visar a obtenção de algum tipo de vantagem, a pena poderá ser aumentada em até dois terços.

Matéria: Alan Vianni