Resgatar a infância

Não sei desde quando outubro virou o “mês da criança”. Mas sei que antes, quando a comemoração não existia ou não era tão enfatizada pelo comércio, as crianças viviam uma infância mais dinâmica e divertida.

Em minha infância, pouco ouvi comentários sobre o dia – quiçá o mês – da criança e tenho lembrança de haver recebido presente uma única vez nessa data. Ouvia-se, isto sim, como em inúmeras outras ocasiões, uma preleção sobre como os pequenos deveriam se comportar. Falava-se muito de deveres e não havia muita simpatia à ideia de que uma criança merecia ter e exercer direitos. Não havia, ainda, no Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente, mas somente o famigerado Código de Menores, altamente repressor.

Pedir um presente aos pais não era costume. Rogá-lo a um parente, padrinho, madrinha ou amigo da família, então, era execrável, pois denotava uma falta de educação punível com, no mínimo, uma boa sova! E os setores comerciais, que ainda não haviam despertado de todo para esse promissor filão de consumidores sem resistência a seus apelos, praticamente ignoravam a data.

Não sei bem desde quando isso mudou, mas a mudança foi radical e há uns bons anos que, logo no início de setembro, o comércio põe-se a anunciar, por todas as mídias possíveis e imagináveis, reais e virtuais, como numa lavagem cerebral, a celebração do “dia da criança” e toda sorte de produtos infantis, enredando adultos e crianças em uma azáfama de escolher e comprar objetos da moda.

Expostos tão intensamente a essa avalanche de anúncios sedutores – que normalmente enfatizam a imprescindibilidade de brinquedos eletrônicos em que a atividade física da criança resume-se a apertar botões; e roupas, sapatos e acessórios que tentam fazer com que meninas pareçam as fascinantes moças da televisão e dos palcos bem antes do tempo -, os pequenos têm poucas chances de defesa.

Essas duas linhas de produtos despem a infância de seus maiores encantos: movimentar o corpo excessiva e livremente e viver com inocência e simplicidade aqueles que, depois de adultas, as pessoas normalmente consideram como os melhores anos de suas vidas.

Já a maioria dos adultos do século XXI, bombardeados pelos reclames e pelos pedidos dos filhos que em regra afirmam que “todo mundo já tem” o que eles pedem, e sem tempo e paciência para questionar e avaliar o resultado que isso produzirá em suas crianças, adere à moda presenteado-as com diversos tipos de equipamentos eletrônicos, acesso ilimitado à Internet, sandálias de salto alto com o nome de cantoras e dançarinas sensuais e outros acessórios impróprios à realidade infantil.

O Superior Tribunal de Justiça tem julgado abusivas algumas propagandas voltadas ao público infantil que são objeto de ações judiciais. Isso é importante e animador, mais ainda é muito pouco.

O Brasil precisa de uma lei que, de uma vez por todas, discipline a propaganda dirigida ao público infantil, todavia, um poderoso jogo de interesses envolve o tema e posterga sua regulamentação. Enquanto produtores e vendedores alegam que conter o direito constitucional à publicidade seria uma espécie de censura, setores preocupados com a formação saudável de crianças alegam que a vulnerabilidade própria a essa fase da vida não pode ser usada para transformá-los em consumidores desenfreados.

É claro que o progresso e a tecnologia trouxeram muitas coisas boas, as quais devem ser aproveitadas. O problema é que, com isso, muitos prazeres simples da infância foram suprimidos e não raro as crianças, que não mais gastam suas muitas energias em atividades físicas, passam a ser obesas, deprimidas, sisudas, aborrecida e perigosamente entendidas de informações eletrônicas, virtuais e maliciosas. Muitas delas nem mais se parecem com uma criança, apesar da baixa estatura.

E, ao crescerem, muitas delas não levarão consigo experiências de criatividade, sociabilidade, interação com a natureza, enfim, lições importantes e sensações agradáveis que rendem recordações tão preciosas quando se vê que a infância vai ficando cada vez mais para trás… As crianças de hoje já estão quase sem infância, vivendo como pequenos adultos.

Mas ainda há tempo para o resgate da infância criativa, feliz, em que é permitido se sujar de terra e tinta, nas brincadeiras que requerem a imaginação funcionando.

Sem esse resgate, as crianças do presente e do futuro, quando instadas a recordar-se da infância, lamentavelmente poderão dizer que apertavam botões e tentavam se parecer com os adultos que a televisão e o computador mostravam.
Será quase como dizer que não tiveram infância.

Simone Judica é advogada, jornalista e colunista de O Democrata ([email protected])