Sacco e Vanzetti: injustiça que não se apaga

Trabalhadores das indústrias têxteis de São Roque, fazendo eco aos clamores e protestos dos operários das tecelagens do Brasil e do mundo, cruzaram os braços e deixaram as fábricas no dia 23 de agosto de 1927, tão logo souberam da execução dos italianos Nicola Sacco e Bartolemeo Vanzetti, na cadeira elétrica, nos Estados Unidos.

“Não se apagou ainda, e não se apagará tão cedo do espírito de todos os povos da terra, a dolorosa impressão causada pelo horrível castigo de que foram victimas os operários Sacco e Vanzetti. Já o panno cahiu sobre o último acto da grande tragédia que aureolou de martyrio as victimas de um erro judiciário, os sacrificados pelo rigor excessivo da magistratura, os desgraçados aos quaes foi negada defesa, porque lhes negaram a revisão do processo. De nada valeram os protestos, de nada valeram as solicitações de clemência do mundo inteiro. Sacco e Vanzetti desappareceram, como há de desaparecer um dia, da face da Terra, todas as injustiças, todas as iniquidades, todas as arbitrariedades.”

Tão expressivo lamento foi publicado no jornal “O Democrata”, em 28 de agosto de 1927.

O período pós-guerra foi conturbado nos Estados Unidos, devido aos expressivos índices de inflação, desemprego, fome e criminalidade. As classes com maior poder aquisitivo atribuíam a culpa pela crise aos imigrantes – espanhóis, portugueses e, em especial, italianos -, difundindo a ideia de que eles tomavam os lugares dos norte-americanos, deixando-os sem emprego e na miséria. Além disso, os estrangeiros, de fisionomia e língua latinas, eram vistos como pessoas perigosas, por muitos deles espalharem ideias de anarquismo e socialismo, que punham em risco a ordem e o modo de vida norte-americanos.

Nesse cenário é que os imigrantes italianos Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti foram acusados de assassinar dois homens durante um assalto a uma fábrica de calçados, no estado de Massachussets, em abril de1920. Ambos foram presos algumas semanas depois do crime e, para sua desgraça, eram operários, estrangeiros e anarquistas militantes, ou seja, reuniam um conjunto de predicados repudiado e temido pelos estadunidenses.

Sacco e Vanzetti foram condenados à pena de morte, apesar de 107 pessoas testemunharem que eles não estavam na cena do crime! Além disso, testemunhas de acusação, sob forte pressão da opinião pública conservadora, contradiziam-se a cada depoimento e, nos exames de balística, peritos apenas atestavam que os projéteis que atingiram as vítimas “poderiam” ter saído das armas dos italianos.

Ostensivamente recheado de falhas, o processo passou a comover tanto a esquerda norte-americana e internacional com também amplos setores liberais. Personalidades como Albert Einstein, Anatole France e Bernard Shaw e até mesmo o Vaticano pediram clemência aos dois condenados. Editoriais dos principais jornais europeus, inclusive os mais conservadores, lamentaram a sentença e exigiam um novo julgamento.

Tudo em vão, como relatou “O Democrata”:

“Antes de se sentar na cadeira elétrica, exclamou Sacco: Viva a anarchia!
E depois, em voz mais baixa: “Adeus esposa! Adeus meus filhos! Adeus, minha velha mãe!

Depois, Sacco sentou-se, apparentando tranquillidade, deixando que os guardas lhe passassem o fio com um electrodo em torno da perna esquerda e lhe afivelassem à cabeça o capacete metálico com outro electrodo. Foi, então, ligada a corrente. Sete minutos depois, o prefeito Hendry constatou que Nicola Sacco tinha deixado de existir.

Dois minutos mais tarde, surgiu Bartolomeo Vanzetti.(…) Emquanto os guardas preparavam a execução, Vanzetti falou com stoicismo, no mesmo tom de sempre, pausado e grave, como se fosse um pregador. Disse elle:

– Estou innocente, deste crime e de outros crimes, embora tenha praticado muitas faltas. Morro innocente.”

Em frente da prisão, uma multidão era contida por grande contingente de policiais. Consumada a eletrocussão dos operários, protestos, comícios e greves eclodiram em muitos países.

Interessante observar a participação maciça dos trabalhadores das tecelagens são-roquenses no movimento e o destaque da imprensa local para o caso. Isso é justificável tanto pela existência de grande número de operários da indústria fabril na cidade, que possuía, além da Brasital, outras pequenas fábricas de tecidos, quanto pela marcante presença da colônia italiana em São Roque.

Diversos estudiosos já se debruçaram sobre o processo e o julgamento de Sacco e Vanzetti e a conclusão é sempre a mesma: foi cometido um erro judiciário. Nas palavras do jurista Edmund Morgan, da Universidade de Harvard, Sacco e Vanzetti foram “vítimas de uma sociedade preconceituosa, chauvinista e perversa”.

Em 23 de agosto de 1977, o então governador de Massachusetts, Michael Dukakis, promulgou um documento absolvendo os dois condenados, exatamente 50 anos depois de sua execução.

Texto: Simone Judica