Um profundo vale de lágrimas

 

Lágrimas e maternidade parecem uma combinação eterna e indissociável. Onde houver uma mãe, daquelas que mantêm em si aceso o fogo sagrado da verdadeira essência de amor incondicional que Deus fez arder na alma das mulheres, é certo que haverá pranto, seja ele de tristeza ou alegria.

Muitos e profundos são os vales de lágrimas percorridos pelas mães ao longo da trajetória maternal. Doenças, fiascos, feridas, decepções e injustiças que atingem seus filhos não raro doem de modo mais intenso nelas. E o mesmo diz-se dos sucessos, conquistas e alegrias que as fazem vibrar e regozijar-se mais calorosamente do que se fossem para elas os louros das vitórias.

Entre os sombrios e incertos vales de lágrimas que as mães têm atravessado, um parece tornar-se cada dia mais frequente, profundo e desesperador. No choro obrigatoriamente silencioso das salas de audiências das Varas da Infância e da Juventude, olhos maternos vertem surpresa, impotência, medo e desgosto difíceis de serem amenizados.

Não é à toa que os fóruns estejam, a cada dia mais, transformando-se em vales de lágrimas para as mães. Em São Roque, cidade considerada de pequeno porte, de acordo com estatística fornecida pelo Cartório da  Primeira Vara Criminal, responsável pelos processos de apuração de atos infracionais cometidos por adolescentes, entre 01 de agosto de 2015 e 08 de maio de 2018, ou seja, em três anos incompletos, 420 novos casos chegaram até o Poder Judiciário.

Esse número significa uma média mensal de uma dúzia de novos processos abertos contra adolescentes na Comarca de São Roque, que abrange os municípios de São Roque e Araçariguama.

Os atos descritos no Código Penal e nas demais leis penais brasileiras,  que se chamam tecnicamente de crimes, recebem o nome de atos infracionais quando cometidos por pessoas menores de 18 anos de idade.

Os adolescentes levados ao Ministério Público e ao Poder Judiciário em São Roque, no período de agosto de 2015 até o início deste mês, têm cometido atos infracionais das mais diversas espécies, como furto, ameaça, injúria, dano ao patrimônio privado e público, lesão corporal, delitos de trânsito, adulteração de chassis, extorsão, receptação, roubo, homicídio, latrocínio, estupro, posse de arma, ato obsceno, difamação, resistência, desacato e comunicação falsa de crime.

O maior número de processos contra os adolescentes, porém, tem-nos como praticantes de delitos relacionados ao tráfico ilícito de entorpecentes. Dos 420 casos registrados, 85 referem-se a apreensão e venda de drogas, o equivalente a vinte por cento dos atos infracionais cometidos pelos menores.

Em regra, os menores que vendem drogas já estão viciados. Dá-se o mesmo com grande parcela daqueles que são levados ao fórum em decorrência de furtos e roubos e acabam por confessar que avançaram sobre o patrimônio alheio como forma de sustentar o vício em substâncias entorpecentes.

As drogas são, pois, o pano de fundo da criminalidade crescente em São Roque, onde facções criminosas perigosíssimas há tempos vêm estendendo seus tentáculos devastadores e cada vez arregimentando pessoas de menos idade – meninos e meninas – para servirem ao tráfico ilícito de entorpecentes.

Levados à presença do juiz, os menores devem estar acompanhados por seus pais ou responsáveis. Raramente um pai aparece para sentar-se ao lado do filho em sua estreia no banco dos réus. Sempre são as mães que lá estão, envergonhadas, abismadas, arcadas pelo peso da responsabilidade de criar e educar as crianças e adolescentes muitas vezes sozinhas, sem apoio moral ou financeiro dos homens que as engravidaram.

A notícia de que os filhos seguirão do fórum para a Fundação Casa – antiga FEBEM –  arranca mais lágrimas das mães e não são poucas as vezes que elas rolam pelas faces e molham o chão da sala de audiências.

Enquanto exerço meu papel de defensora dos adolescentes, observo-os e às suas mães com atenção. A  maioria deles parece estar muito mais revoltada com a prisão do que arrependida de seus atos. Por sua vez, elas exalam o desalento de quem sabe quão difícil será o vale de lágrimas em que sua vida estará mergulhada a partir daquele momento.

Para muitas delas, começa ali a peregrinação pelas unidades da Fundação Casa, de onde seus adolescentes sairão para logo voltarem a delinquir e, uma vez maiores de idade, acabarem presos, arrastando-as consigo pela vida insuportável da visitação aos presídios, onde mais uma vez os pais não comparecerão, deixando para elas, como sempre, todo o peso de apoiar o filho.

Todas as mães têm seus vales de lágrimas, mas esse, de ver filhos e filhas tão jovens enredados no uso e no tráfico de drogas, por certo é profundo e íngreme demais para uma mulher suportar.

Parabéns a todas as mães por todos os dias, que indiscutivelmente são seus e vão muito além do segundo domingo de maio.

Simone Judica é advogada, jornalista e colunista de O Democrata ([email protected]).

Esta coluna tem o patrocínio de Pátio Corina.