Um Senhor Professor

Nos últimos dias, as perenes saudades que sinto do professor Linnêu apertaram-me mais contundentemente o coração…

Por isso, hoje divido recordações e saudades com meus leitores.

Linnêu Raphael Judica, filho de Sylvio Francisco Judica e Sabina Anna Judica, nasceu em 27 de novembro de 1935, em São Roque, onde se destacou, por quase quarenta anos, no exercício do magistério.

Sua formação escolar começou no antigo “Grupo Escolar Dr. Bernardino de Campos”. Concluído o ensino primário, foi encaminhado a São Paulo, onde principiou os estudos secundários no tradicional “Liceu Coração de Jesus”, vindo a terminá-los em São Roque, em 1951, integrando a histórica primeira turma de formandos do Colégio Estadual “Horácio Manley Lane”, em que também fez o curso científico, atual ensino médio, formando-se em 1954.

Formou-se em Geografia Geral e do Brasil pela Universidade de São Paulo – U.S.P. , em 1958, quando iniciou sua brilhante carreira no magistério.

Após lecionar em colégios e faculdades na Capital e no interior paulista, o professor Linnêu decidiu continuar sua carreira em São Roque, havendo lecionado, por mais de três décadas, nos colégios nos quais estudou, as Escolas Estaduais “Dr. Bernardino de Campos” e “Horácio Manley Lane”.

Seus conhecimentos científicos e preparo intelectual constantemente foram alvos de admiração por parte de seus alunos, colegas de magistério e amigos, pois, detentor de inteligência e memória prodigiosas, sempre se destacou pelo ecletismo e pela profundidade de seus conhecimentos, espraiados muito além da Geografia, da Geologia e da Mineralogia, alcançando Ciências, Astronomia, Cinema, História, Literatura, Política e Economia.

Seu humor ácido e refinado, seu rico vocabulário e os apelidos que colocou se eternizaram como marcas singulares de sua personalidade.

Inquieto pensador e sonhador, influiu na formação de gerações de estudantes em São Roque, que continuamente reverenciam a importância do professor Linnêu em suas formações acadêmicas e de vida.

Sob seu perfil aparentemente conservador, havia um homem de vanguarda, avesso ao autoritarismo e questionador, que há mais de sessenta anos defendia temas sobre os quais ainda não se falava, como ecologia, sustentabilidade e combate ao consumismo, entre outros.

Além de seu destaque no magistério, o professor Linnêu também atuou com brilhantismo como correspondente e colaborador dos “Diários Associados”, de São Paulo, por longos anos, assim como colaborou por décadas com o jornal “O Democrata”.

Conforme as impressões externadas pelo jornalista Francisco Verani Netto, em texto intitulado “Um homem que amava as pedras”, publicado em “O Democrata” de 7 de outubro de 2009, como homenagem póstuma ao mestre e amigo falecido nesta cidade em 28 de setembro daquele ano, “o Professor Linnêu nunca foi uma personalidade de fácil entendimento. Muitos o qualificavam como uma pessoa esquisita, para taxá-lo como estranho ou excêntrico. Talvez ele assim fosse, realmente, para os que não lhe eram mais próximos. Para estes, contudo, o adjetivo lhe caberia, mas na sua acepção de pessoa rara e requintada”.

Para Verani, “a morte do Professor Linnêu torna a nossa São Roque mais pobre e menos inteligente. Linnêu Judica foi nesta terra não só um grande professor, como poucos, no contexto do ensino público de nosso chão, mas um grande educador para muitas gerações de são-roquenses que ajudou a formar. Como professor, foi quase um missionário, ainda que se utilizasse de métodos pouco ortodoxos na tarefa de ensinar. Tinha uma maneira ímpar de dar aulas, uma forma própria de transmitir aos seus alunos os conhecimentos que possuía, e que não eram poucos. Muitos dos que hoje estão colocados profissionalmente em bem-sucedidas profissões devem ao estímulo de suas aulas o êxito em suas carreiras”.

Chico Verani também lembra que no velho ginásio Manley Lane, no Bernardino de Campos, e por onde passou, “o Professor Linnêu deixou marcas indeléveis nos que foram discípulos. Aos outros, que além de alunos em certa época, puderam conviver com o colega e amigo inesquecível, fica a lembrança de seu trato amável, fidalgo, educado e solidário.”

Em 2011, a EMEI do Junqueira recebeu a denominação de “Professor Linnêu Raphael Judica”, por iniciativa do vereador e ex-aluno Marcos Carvalho de Brito – “Chula”, merecidamente imortalizando o nome do velho mestre.

Aos meus olhos infantis, era o tio mais querido, a um só tempo austero e divertido. Como sua aluna no “Dr. Bernardino de Campos”, vi o mestre, enérgico e espirituoso, ensinando e repreendendo com igual veemência, e compreendi porque se tornava inesquecível para tantos quantos foram seus discípulos.

Passados os anos, concluí que foi muito superior ao que vi como sobrinha e aluna. Não fosse ele, com seus constantes ensinamentos e correções, eu jamais teria aprendido e aprimorado a arte da escrita e tornado-me colunista de “O Democrata”.

Simone Judica é advogada, jornalista e colunista de O Democrata ([email protected]).

Texto: Simone Judica