Viva e veja São Roque!

Em 1657, o bandeirante Pedro Vaz de Barros, exausto da longa jornada percorrida aos solavancos sobre o lombo de um burro, deu ordem de parada a seus muladeiros e determinou que se montasse acampamento naquele belo vale que se abria diante de seus olhos, às margens dos ribeirões Aracaí e Carambeí.

Era hora de descansar de sua perigosa peregrinação, empreendida para desbravar o interior paulista. O descanso, todavia, transformou-se logo em desassossego, pois o cenário eleito para seu repouso afigurava-se-lhe tão bonito e próspero, que lhe era penoso demais deixá-lo para trás após algumas horas ou alguns dias.

Pedro Vaz de Barros circunvagou o olhar pelo vale e por ele apaixonou-se como um homem que se vê prisioneiro dos encantos da mulher que ama e não encontra coragem para partir de sua presença.

Por aquele vale, Pedro Vaz de Barros decidiu-se a abandonar a vida de aventuras e conquistas que as bandeiras lhe proporcionavam.

Seu incontido encantamento pela descoberta do vale do Carambeí e do Aracaí e a notícia de que aqui seria sua nova morada fizeram com que parentes e amigos viessem ver o que tanto poderia haver neste lugar para fazer encerrar a carreira do Capitão Vaz de Barros nas bandeiras paulistas.

Paisagens exuberantes, colinas e vales, terras férteis, ribeirões, clima agradável e localização estratégica fizeram com que outros olhos também enxergassem esta terra como próspera.

Estava, pois, fundado o povoado de São Roque, um lugar onde a parentela, os agregados e os amigos de Pedro Vaz de Barros poderiam viver em paz com suas famílias, plantar e colher com abundância, desenvolver habilidades e talentos, contribuindo, cada um a seu modo, para o bem-estar individual e coletivo.

Após 360 anos, São Roque segue com os mesmos encantos, embora alguns deles estejam desbotados ou desgastados pela ação humana.

No vale do Carambeí e do Aracaí ainda é possível se viver em paz com a família. Aqui continuam a existir belas paisagens e o solo guarda e renova os nutrientes que o fazem fértil para muitas culturas que elevam o nome da cidade no cenário nacional, como uvas e alcachofras. Muitos filhos da terra prosseguem a desenvolver talentos e habilidades que lhes permitem despontar nas mais diversas áreas, Brasil e mundo afora.

Parece faltar a São Roque, entretanto, algo que sobejava há 360 anos. Pouco se veem olhares de embevecimento, paixão e compromisso com esta terra, como aqueles que certamente fulguravam nos olhos de Pedro Vaz de Barros quando se decidiu a fazer deste lugar o seu último destino.

É pungente ouvir dos são-roquenses palavras desdenhosas sobre a cidade, assim como é doloroso comparar o passado e o presente e notar o quanto São Roque perdeu ao deixar seus prédios históricos virarem ruínas ou serem demolidos, suas bandas serem desativadas, suas indústrias rumarem para outros municípios, sua Santa Casa virar palco de crimes e suas antes acolhedoras praças, outrora ocupadas pelas famílias, hoje em péssimo aspecto de conservação, a abrigarem desocupados e retratarem o descaso de autoridades para com o patrimônio público.

Muitas coisas boas São Roque auferiu nestes 360 anos e muito mais há a ser conquistado e melhorado, mas para isso é preciso que os são-roquenses olhem para a cidade com o mesmo arroubo de amor, confiança e compromisso com que Pedro Vaz de Barros olhou para aquele vale verdejante, vendo nele seu lar e seu futuro.

É tempo de o são-roquense espelhar-se, pois, no Capitão Pedro Vaz de Barros, e firmar o compromisso de, neste 16 de agosto em que a cidade completa 360 anos, olhar para São Roque com os mesmos olhos de amor, admiração e vontade de fazê-la progredir com que ele, em 1647, contemplou esta terra.

Não basta olhar e amar. É preciso contagiar outros. Faz-se necessário, ainda, um agir eficiente para tornar a cidade cada vez mais próspera e acolhedora.

É preciso abrir os olhos para descortinar os encantos desta terra e apontá-los àqueles que se recusam a vê-los ou que nunca os notaram. Urge revitalizar a área central da cidade; fazer o trem turístico funcionar; reativar as bandas de música; incentivar o desenvolvimento da cultura; investir em educação de qualidade; priorizar a saúde; valorizar a história da cidade e de seus personagens importantes e contá-la nas escolas; envolver todos os segmentos da população no processo de fomento do turismo, para que todos se sintam integrados na geração de renda que ele promove e assim assumam seus papéis nessa engrenagem promissora.

Parabéns, São Roque, por seus 360 anos! Que seus filhos saibam apreciá-la, valorizá-la, amá-la e trabalhar para sua prosperidade, como fez Pedro Vaz de Barros.

Viva e veja São Roque!