Cine São José: baú de recordações

Se fosse comparar o Cine São José a um objeto, diria que o velho cinema tem o jeitão de um baú daqueles antigos que, após muito tempo fechado, esquecido ou escondido em algum lugar, quando retiradas a poeira e a ferrugem que o cobrem revela-se um manancial de tesouros e recordações a causar encanto e admiração em quem olha seu interior.

Desse baú já saiu um tesouro, o Café Cine São José, primeira etapa do projeto de revitalização do Cine São José e porta de entrada dos são-roquenses a esse universo de lembranças pertencente a todos que, durante mais de meio século, transitaram por esse cenário de amores, amizades, paixões e travessuras, sob as imagens românticas, cômicas ou dramáticas projetadas em seu telão.

Algumas lembranças desse baú foram sacadas na última sexta-feira, durante o “Sarau de Memórias” promovido pelo Café Cine São José.

Orgulho:

Abrindo o sarau, o aposentado Pablo Alonso recordou-se de sua chegada a São Roque em 1952, vindo da Espanha: “Logo fui contratado por Vasco Barioni para trabalhar no acabamento do Cine São José. Ainda havia tapumes e muitas coisas funcionavam provisoriamente. Tivemos muito trabalho e foi demorado, porque não podia interromper os espetáculos e era preciso manter tudo limpo por causa do público. Ajudei a fazer a fachada onde os desenhos não são apenas pintados, mas gravados. Fiquei cinco anos trabalhando e morando no cinema, em um quarto onde os artistas se trocavam, e era tratado como se fosse da família. Tenho muito orgulho de ter participado dessa obra”.

“Vasquinho também me ‘emprestava’ para algum amigo que precisasse de pedreiro. Certa vez ele me mandou reformar a sede da Banda Carlos Gomes e trocar os vitrôs e pagou meu serviço”, concluiu o Sr. Alonso.

Uma janela para o mundo:

O carteiro Carlos Augusto Caldeira, 59 anos, também repartiu suas recordações no sarau. “Comecei a frequentar o Cine São José quando adolescente. Vinha cedo para a ‘Taba’ e ficava na cidade para a Matinê. Conseguia dinheiro para o ingresso do cinema, a pipoca e a groselha tirando água do poço para meus vizinhos. Os meninos trocavam gibis e figurinhas no intervalo dos filmes. Aqui aprendi a namorar e encontrei uma janela para o mundo, pois antes dos filmes passava um noticiário que me mostrava notícias do Brasil e do exterior a que eu não tinha acesso. O Cine São José me ajudou a descobrir o mundo”, enfatizou Caldeira.

Tijolos:

O compartilhar de lembranças teve a participação da Sra. Cecília Kitagawa Pontes e do jovem Fernando Kitagawa, sobrinha e neto do Sr. Hitsuzo Kitagawa, falecido proprietário de uma olaria no bairro da Ronda, em Araçariguama, que doou parte dos tijolos usados na construção do Cine São José. “Descobri essa história recentemente e soube que meu avô fez essa gentileza. Para mim é uma honra e uma surpresa saber que minha família participa dessa história e fico muito emocionado por estar aqui, neste lugar tão especial, feito com tijolos que passaram pelas mãos do meu avô”, finalizou Fernando.

Suspensão:

José Luiz Gavazzi, diretor da Látex São Roque, relembrou um fato de 1965: “Fiquei ‘suspenso’ do Cine São José ao ser pego em flagrante pelo Sr. Celso Moraes – que era gerente, bilheteiro e ainda ajudava a tomar conta e acalmar os ânimos dos adolescentes – soltando bolinhas de gude embaixo das cadeiras. Sentávamos na última cadeira do cinema, perto da mureta, das cortinas e da bilheteria, e soltávamos bolinhas de gude no chão. Como o piso do cinema era em declive as bolinhas desciam batendo nos pés das cadeiras, que eram de metal, e isso incomodava quem assistia ao filme. Eu não era o único a fazer isso, mas tive a infelicidade de ser surpreendido pelo Sr. Celso com as bolinhas na mão, executando a travessura”.

“Conclusão: fui retirado do cinema e proibido de frequentar as sessões do Cine São José por três meses. O mais interessante é que levei a sério e cumpri a suspensão direitinho. Quando venceu o prazo e voltei, ao comprar o bilhete o Sr. Celso me olhou e disse: ‘Veja lá o que você vai aprontar’. Nunca mais soltei as bolinhas, certo de que ele não iria nem procurar o responsável e de cara me atribuiria a culpa”, conclui divertido Gavazzi.

Olhadinha:

“Uns por malandragem e outros sem má intenção pediam licença ao bilheteiro para “dar uma olhadinha” dentro do cinema antes de comprar o bilhete, para localizar um conhecido ou parente ou ver se o filme era interessante. Raramente alguém voltava pagar o ingresso e o lanterninha ‘Zé Coco’ tinha de capturar o penetra durante o filme”, recordou a aposentada Ieda Sarti.

Para acabar com esse mau costume, Vasquinho afixou um cartaz no espelho do saguão de entrada: “É PROIBIDO PEDIR PARA DAR UMA OLHADINHA”.

“A repercussão do cartaz foi tão grande que foi parar até na sessão de curiosidades do jornal ‘Folha de São Paulo’, concluiu nostálgica Ieda.

Que desse baú continuem a brotar lembranças!

Simone Judica é advogada, jornalista e colunista de O Democrata (simonejudica@gmail.com).

Texto: Simone Judica