Covid-19 e a Banalidade da morte

Hanna Arendt nos propiciou a idéia de  Banalidade do mal ao dissertar, apoiada no conceito de Mal radical kantiano, sobre a burocracia nazista e suas consequências na construção da consciência do indivíduo levando em consideração o frio comportamento de Eichman, no julgamento em que era réu, acusado por Crime contra a Humanidade diante a execução de milhões de judeus sob sua ordem. O colapso do homem enquanto homem já foi traduzido por grandes pensadores como Lukács no seu trabalho sobre a coisificação das relações humanas, agora estamos apenas observando o que isso significa na prática. Quando a economia ou o bem material de abdução da consciência em uniformidade com a alienação ( vide a aglomeração para tirar fotos de carros de luxo em Jundiaí em meio a uma Pandemia ) se

sobressai sobre a vida do indivíduo e do coletivo só nos resta pensar no pior, no abismo real ao qual a existência humana se entregou. Quando alguém vos diz que diante 207 milhões de habitantes ”apenas” 20 mil vidas foram ceifadas (por enquanto), sem mais nem menos, você passa a diluir seus pensamentos numa análise triste e pessimista de onde se encontra, na atual circunstância, a Condição Humana. Quando alguém morre e se torna parte de uma estatística perversa, tão assombrosa quanto às estatísticas das periferias e subúrbios enegrecidos do Brasil, e a despedida de tal ente se faz apenas em pensamento, quando esse Ser se transmuta apenas em uma parte ínfima dentro da quantificação de vidas que se amontoam em dados – óbitos sem nenhuma forma de expressão a não ser numérica, quando abrem-se covas onde corpos são depositados sem adeus, e quando diante toda essa realidade mórbida, pessoas exclamam, foram apenas 1, foram apenas 10 ou foram apenas 20 mil! , então aí se instala a banalidade da morte.

Isso carrega em si mesmo um aspecto tão sombrio que talvez seja necessário uma reformulação dos determinantes  psíquicos da massa, que dissolvida numa espécie de normatividade do indiferente,  se comporta como uma avalanche maquínica sem vontade própria.

Vale ressaltar que o termo banalidade significa aquilo que é banal, fútil, comum. Portanto, quando centenas de milhares de mortes se tornam uma trivialidade nos meios de comunicação, nas redes sociais ou nas conversas paralelas, isso me traz a ideia de que o próprio conceito de vida deve ser ressignificado.

São, portanto, nas metáforas do inclassificável que criamos as possibilidades de desvelamento deste presente. Lapidar, camada por camada esse fenômeno e deixar exposto sua estrutura, nos redireciona instantaneamente ao funcionamento deste mesmo fenômeno.

Mas agora já não são apenas uma ou 20 mil vidas, já são mais de 100 mil, mais de 150 mil almas mortas, para citar Gogol. E nada dessa imensa tragédia parece ter surtido efeito sobre a estrutura de um inconsciente coletivo. Parece que tudo parece exatamente como sempre foi. Não há questionamentos diante a comprovação dos fatos inegáveis. A própria razão se anula quando, metaforicamente falando, entubamos nossos sentimentos.

Recaídas na indiferença, é mais importante me aprisionar em meu conforto do que refletir sobre a dor do próximo. Eis o novo evangelho: pregai-vos a dor!

Passaram-se os dias, e esses mesmos dias já passaram a ser contados para além de suas horas. Não são os minutos, mas os cadáveres que indicam o tempo.

Mil mortes por dia…Mil e uma…Mil novecentas e dez! E com tudo isso, somam-se, apenas em nosso país, 260 mil seres humanos que agora sustentam lembranças, apenas lembranças de uma vida sem adeus.

As fases dos nossos meses já não são mais estratificações da Natureza; já não são os verões ou os outonos onde os jardins se equilibram e, tão menos, as lindas primaveras onde os compassos das flores incitavam o amar. Chegamos num longo inverno! Período que esconde os sorrisos de nossos rostos, mas que expressa, claramente, o semblante vazio no olhar dos necessitados.

Houve uma transformação nos eixos de nossa existência, uma alteração nas condições humanas dentro da própria concepção de humanidade e essa ruptura é inquestionável.

E o que realmente aprendemos com isso? Que não somos aquilo que pregamos ser diante o Universo? Que nossa condição humana é na verdade monstruosa e isso fica evidente, quando, diante uma epidemia em que 2.560.000 pessoas partiram para uma UTI eterna sem necessariamente o último enlace com a vida, e que jazem sob o desprezo por parte daqueles que ainda dizem que foram só mortes!

Laerte Wilians Cameschi – Graduado em Filosofia – Universidade Federal de São Paulo