Cultivo de uva orgânica e o manejo de solo

Na matéria publicada nesse Semanário em 19 de março intitulada “Cultivo de Uva Orgânica: Sonho ou Realidade” narramos diferentes choques de conhecimento entre o sistema convencional e orgânico de produção de uva. O primeiro choque de conhecimento está justamente no manejo do solo, começando pelo preparo do solo para o plantio das mudas e chegando até ao manejo do mato.

Na formação de um vinhedo convencional, o manejo do solo via de regra passa pelo revolvimento do solo. Se houver a suspeita de algum impedimento físico no solo abaixo de 20 cm de profundidade, é normal a recomendação da subsolagem para quebrar o tal impedimento. Quando a análise química do solo assim indica, fazemos a correção do pH através da aplicação um pó de rocha rico em óxido de cálcio e magnésio. Alguns agricultores corrigem o pH apenas na linha de plantio até 40 cm de profundidade.

Com o solo pulverizado pela gradagem, chega a hora de abrir as covas. Antes do plantio da videira, a recomendação é aplicar 10 litros de esterco de curral ou 3 litros de esterco de galinha por cova, em mistura com a melhor terra da superfície (0 a 20 cm de profundidade) e com a adubação mineral de acordo com a análise de solo. Reza ainda a cartilha do sistema convencional que a terra da superfície enriquecida pelo adubo orgânico e químico deva ir para o fundo da cova e que o vinhedo deva permanecer no limpo. Ou seja, livre de mato ou das plantas daninhas, uma vez que tais plantas competem com a videira por água, luz e nutrientes, além de servir de abrigo para pragas e doenças.

Na implantação do vinhedo experimental orgânico realizado em setembro de 2018 na Unidade de Pesquisa e Desenvolvimento em Agricultura Ecológica – UPD AE da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, em São Roque, o manejo do solo e do mato – no sistema orgânico chamamos de plantas espontâneas, foi bem diferente.

No Projeto Cultivo de Uva Orgânica na UPD AE realizado em parceria com o SINDUSVINHO, o Instituto Federal – IFSP/SRQ e a Prefeitura, o manejo do solo começou perguntando ao solo o que ele precisava de preparo. Ao consultar o solo encontramos um solo sem impedimentos físicos e quimicamente corrigido e equilibrado até 40 cm de profundidade. Dessa forma, a implantação do vinhedo ocorreu sem revolvimento do solo, o que ajudou a preservar a cobertura morta e o teor de matéria orgânica do solo de 4,7%.

Na palhada da adubação verde realizada no verão anterior com mucuna preta foram abertos os berços para o plantio das videiras. Isso mesmo, berço ao invés de cova. Pela sabedoria popular, as palavras têm força, não é mesmo?. Então, em cova normalmente enterramos coisas mortas. O que queremos que cresça e se desenvolva colocamos em berço. Por isso, no sistema orgânico abrimos berços e não covas quando queremos plantar qualquer muda.

No sistema orgânico procuramos imitar a natureza. Por isso, a adubação orgânica não é enterrada em profundidade. Ao colocar o composto orgânico no fundo das covas no sistema convencional, favorecemos a formação de gases e substâncias tóxicas as raízes, como a cadaverina e putrescina. Nos berços o composto orgânico fica na superfície do solo. Você já observou numa mata onde está a adubação orgânica formada pelo resto de folhas, galhos e demais resíduos orgânicos? Bingo! Na superfície, formando o que chamamos de serrapilheira.

E depois dessa, como o sistema orgânico maneja as plantas espontâneas? Elas são manejadas de forma a manter sempre uma cobertura verde sobre o solo. As plantas espontâneas não competem por água com a videira. Na verdade, ajudam na conservação da umidade do solo, visto que o solo nú perde muito mais água (pelo aquecimento do solo) do que um solo coberto. São elas que aproveitam a energia solar para produzir biomassa, realizando assim, uma adubação verde natural. As plantas espontâneas não competem por nutrientes. Na verdade, ajudam na ciclagem deles. As plantas espontâneas, em especial as que produzem flores, servem de abrigo e alimento para diversos inimigos naturais, como é o caso das joaninhas que se alimentam dos pulgões. Elas são indicadoras da fertilidade do solo. O caruru só desenvolve em solos rico em potássio. O rubim indica solos deficientes em manganês. O leiteiro indica solos deficientes em molibdênio.

O manejo do solo no sistema orgânico deve evitar o revolvimento e pulverização da terra. As plantas espontâneas são aliadas e não vistas como uma dor de cabeça para o agricultor. Pense nisso ao manejar o seu pomar!

Sebastião Wilson Tivelli – Eng. Agrônomo e Pesquisador Científico da Apta Regional

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