Com a voz , O Lampião | Cultura

Quantos parênteses e aspas é possível colocar em 61 anos de uma existência inquieta e contestadora? Nascido em São Roque, interior de São Paulo, Darcy Penteado (1926-1987) encarou o desafio de existir na pluralidade, inserido numa sociedade que oprime e marginaliza corpos que se desviam da norma. Autodidata que veio ao mundo na época do modernismo brasileiro, o artista contestava o futilismo e lançava provocações necessárias não apenas ao que estava posto ao seu redor como também àquilo que o atingia diretamente. Gay em tempo de repressão, Darcy não resume sua trajetória à sua sexualidade, ainda que a mesma permeie boa parte de sua obra. Com um olhar amplo, discute com as tradições, transformando e reinventando o cotidiano em um ciclo interminável de criatividade e luta. Ousou ser ácido e sagaz em uma época em que se manifestar poderia ser motivo de exílio e morte. Utilizou sua arte para discutir o mundo e seus valores, para expor sua experiência existência criativa e atemporal, num jogo de sedução e rejeição, trazendo à tona valores arraigados em um passado distante que muitas vezes nos são contemporâneos.

Autodidata, Darcy Penteado marcou sua vida profissional por um intenso trabalho nos mais diversos setores culturais. Iniciou sua carreira como publicitário em 1944, foi figurinista de moda e teatro, trabalhou como ilustrador para as principais publicações do país, participou de importantes Bienais nacionais e internacionais, tornou-se retratista da alta sociedade e do show business. Possui obras espalhadas pelos principais museus do Brasil. Artista inquieto, não se contentou somente em pintar, adotando a escrita para falar das necessidades de conscientização dos direitos dos homossexuais, com a publicação de quatro livros sobre a temática.

Darcy decidiu experimentar a colagem, influenciado por Picasso e Braque, quando estava no auge da carreira. Aos 40 anos (década de 1960), vivendo na Itália, tinha acabado de se destacar na Bienal Internacional de São Paulo e conquistado seu espaço no mundo das artes, quando decidiu brincar com vários materiais, como tecido, recortes de jornal, fotografias, ampliação de imagens, grafismos, desenhos com materiais diferentes (carvão, nanquim e óleo).

Era também o que foi chamado à época de “post-pop”, um termo criado por Darcy Penteado e que a crítica italiana dizia que seus quadros era uma nova tendência decorrente da cultura pop, com outros valores e formas de expressão.

Foi um dos primeiros intelectuais a levantar publicamente a bandeira da luta contra a discriminação e o preconceito em relação à causa LGBTQIAP+ e pela conscientização sobre a epidemia da aids. Sua arte deu lugar e voz aos criminalizados em protestos públicos em plena ditadura.

A proposta curatorial traz parte da história do movimento gay no Brasil, que ganha lugar de fala com o jornal O Lampião da Esquina, considera importante reabrir a discussão sobre o papel e a militância de Darcy Penteado no meio cultural e artístico brasileiro e entende que se faz necessário urgentemente tratar da evolução do pensamento, ocasionada pela conscientização dos elementos minoritários, da própria sociedade e do sistema político do país, que se concretizam cada vez mais em cenas de intolerância nos espaços familiares, urbanos e artísticos. Era essa a luta e a militância de Darcy Penteado com a voz de O Lampião da Esquina. Continuemos resistindo na arte.

Ficha técnica

  • Curadoria de Jaqueline Ferreira e Anna Gadelha
  • Realização : Galeria Recorte
  • Colaboração de pesquisa: Magali Nogueira
  • Jornalista : Denise Chiarato
  • Fotografia : Thiago Coeser
  • Expografia: Alexandra Cavassana
  • Apoio : ARCA ( Ateliê Rural Capello) – Pousada Aconchego no Campo – Print Digital – Vinicula XV de Novembro
  • Agradecimento a Divisão de Turismo da Estância Turistica de São Roque e Paulo Penteado
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