Primeira madrinha de bateria LGBT da Corações Unidos de São João Novo vai para a avenida em 2020: “Um sonho realizado”

Crédito da foto: Fenando Silva

“Desde criança eu já sabia que eu era diferente, os meninos sonhavam em serem jogadores de futebol, as meninas na época queriam ser uma das paquitas e eu amava fevereiro, quando via a vinheta do carnaval a TV, e esse era o meu sonho de criança”, relembra Lorena Mickaellyn Silva, são-roquense eleita em 2020, a primeira madrinha de bateria transexual da Escola de Samba Corações Unidos de São João Novo.

Há 20 anos Lorena participa ativamente dos desfiles de Carnaval de São Roque e foi a única a compor a corte do Carnaval representando o movimento LGTB, vencendo o preconceito e as dificuldades. “Eu amo o carnaval e sempre lutei para conquistar um espaço de igualdade”, conta. O saudoso Alexandre Delgado foi o único a desfilar a frente de uma bateria em São Roque, como Lorena. A Corações Unidos de São João Novo tem 53 anos de tradição na maior festa do país e, para Lorena, ocupar um cargo de tamanha importância em uma agremiação que tem uma bagagem grande, aumenta ainda mais a responsabilidade.

“Agradeço a toda comunidade que me recebeu de braços abertos, agradeço a família Corações Unidos por me acolher, que honra fazer parte dessa família. Uma honra imensa ser madrinha LGBT dessa bateria que tem uma história ao longo desses 53 anos. Espero que seja o primeiro de muitos carnavais juntos. Não ganhei apenas uma faixa ou um cargo, ganhei muito mais que isso, ganhei amigos que levarei eternamente para minha vida” agradeceu emocionada após a entrega das faixas.

20 anos de amor

Lorena conta que no ano 2000 finalmente conseguiu convencer a mãe e deixa-la desfilar pela Acadêmicos do São Roque Clube, que voltava aos desfiles naquele ano. “Amei aquela experiência, saí em uma alegoria, mas não era bem ali que eu gostaria de estar. Fui então para a Unidos da Estação Santa Quitéria, onde fiquei 3 anos, um ano como comissão de frente e dois como destaque, mas ainda não era onde eu queria estar”.

Ela conta que chegou a fundar uma escola em 2004, chamada Império Dourado, para realizar o sonho de sair à frente da bateria, mas no dia do desfile um problema impediu que ela desfilasse. Em 2005 foi madrinha da ala das passistas na escola da Vila Amaral. Assim foi buscando em outras agremiações a realização do sonho, mas a respostas eram sempre as mesmas: “já temos nossa corte”, “você não tem os padrões”.

“Em 2009 a então diretora de Cultura da cidade me fez o convite para ser a primeira rainha trans do Carnaval fazendo parte da corte da cidade, e eu é claro aceitei, embora ainda não fosse bem o que eu queria, mas foi maravilhoso”, conta.

Em 2010 desfilou pela Mocidade Independente da Vila Aguiar e ficou até 2011 como passista. Em finalmente em 2012 foi a primeira vez que esteve à frente de uma bateria. “Naquele ano realizei meu sonho em ser madrinha de bateria da União Cambará, escola essa que fazia sua estreia naquele ano, ficando até o ano seguinte, quando a escola então chegou ao fim”. De 2014 a 2018 devido a uma depressão e a morte da mãe, Lorena se afastou da avenida. No ano passado entrou para a Corações Unidos, apresentando a escola para o público.”

Após uma mudança a diretoria, o atual presidente me convidou a assumir o cargo, a escola tem 53 anos de existência e pela primeira vez em sua história, vem uma madrinha LGBT. O peso em ser madrinha de bateria de uma escola tão tradicional é muito maior do q a experiência vivida no passado. Sou muito grata por esses 20 anos em tantas escolas, mas a Corações Unidos se tornou minha escola do coração e espero que seja o primeiro de muitos carnavais juntos”, finaliza.

Marcelle Parente