No primeiro dia de ‘liberdade’ pós-confinamento, brasileira pedala 20 km na França

Vinte quilômetros de bicicleta. Foi assim que a documentarista brasileira Amanda Chamusca, 39, festejou seu primeiro dia de liberdade depois de 55 dias de confinamento em Lyon, na França. Na segunda-feira (11) ela cruzou a cidade pedalando – e notou as mudanças ocorridas em decorrência do coronavírus.

“A primeira coisa que fiz foi sair de bicicleta. Eu deixei os meninos [filho e marido] em casa, jogando xadrez. Eu precisava daquele tempo só para mim. Eu queria sentir o vento da bicicleta, sentir um pouco de liberdade”, contou Amanda, em entrevista para o BuzzFeed News.

Amanda, em um ponto mais movimentado de Lyon, a 470 quilômetros de Paris.

A França deu início ontem à flexibilização do isolamento social. O termo lockdown foi evitado no país, mas, na prática, o confinamento foi total. Para sair de casa, os franceses precisavam de autorização, só podiam recorrer a serviços médicos, compras essenciais, imperativo de trabalho ou alguma saída para fazer exercícios, nunca em um raio maior que 1 quilômetro de distância de casa.

“Nesses 55 dias, eu saí de casa apenas quatro vezes: três para ir ao supermercado e outra para pegar minhas lentes na ótica”, contou Amanda. Ela ficou em quarentena com o filho, Arthur, de 7 anos, e o marido, o físico Laurent Mahieu, 45, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França.

Laurent trabalha de casa; e o filho estudou, durante todo o período, em uma plataforma digital privada, mas que teve seu acesso aberto a todos os estudantes franceses pelo governo. O aniversário de Laurent, na semana passada, foi comemorado à distância, em um encontro virtual pelo Zoom.

“Bebemos vinho com os amigos pela internet. Todos os amigos aqui têm falado a mesma coisa: o que temos para o momento é tomar vinho”, afirmou a documentarista. “Embora tenha sido difícil esses 55 dias confinados, a gente não tem do que reclamar. A gente não teve angústias relacionadas ao trabalho nem penúria relacionada a dinheiro. Tivemos sorte”, falou Amanda.

Ontem, começou o desconfinamento progressivo. “Hoje, a gente pode sair de casa sem autorização e sem limite de tempo, mas somente na região, a um raio de 100 quilômetros de casa. Com isso, não podemos encontrar a família e muitos amigos por enquanto.”

Durante a pedalada, Amanda diz que encontrou uma cidade diferente da que deixou dois meses atrás. Bares, restaurantes, cinemas, museus, bibliotecas e teatros estão fechados até setembro. “O governo dividiu o mapa da França em verde e vermelho. Nas cidades em vermelho, os parques também estão fechados e são proibidas as aglomerações acima de dez pessoas. Em Lyon, o comércio de rua voltou a funcionar, mas os shopping centers estão fechados”.

Amanda disse que as aulas estão voltando progressivamente para os estudantes, mas com mudanças. “A classe de Arthur foi dividida em dois grupos, cada grupo tem aula duas vezes por semana. Tem todo um protocolo de distanciamento, que inclui empresas, onde os funcionários têm de ter um distanciamento de 4 metros quadrados.”

“Uma coisa muito difícil nesse confinamento foi esse silêncio. Eu adoro andar de bicicleta com música bem alta e quis atravessar a cidade inteira para ver como estava. A cidade está fantasma. Tem poucos carros circulando. O que mais vi foi criança com mãe”, disse a documentarista, que registrou o passeio com fotos da cidade.

Amanda ainda não saiu com o filho na rua, mas disse não ter medo de que o menino contraia a doença. “Eu tenho medo do que essa pandemia vai causar depois, as mudanças sociais, medo que as pessoas não se cumprimentem mais. Eu, que sou baiana, adoro abraçar. Encontrei ontem uma amiga na rua e ela me disse: a gente se cumprimenta de longe. Eu achei muito estranho.”

A França registrou até esta terça-feira 139.519 casos confirmados de coronavírus, com 26.643 mortes. Dividido em departamentos, o país tem 32 departamentos na zona vermelha e 69 na zona verde.