A frota de automóveis de passeio no Brasil chegou a uma idade média próxima de 11 anos, segundo dados do Sindipeças com base em informações do Senatran. O levantamento indica 10 anos e 11 meses em 2024, com tendência de ultrapassar 11 anos nos próximos anos. Para autoveículos em geral, a média varia entre 10 anos e 10 meses e 11 anos e 2 meses, conforme a fonte e o período analisado.

Em artigo publicado na Gazeta Mercantil Digital, o professor Dr. Marcelo Alves, coordenador do Centro de Engenharia Automotiva (CEA) da Escola Politécnica da USP, analisa o envelhecimento da frota como um reflexo direto de uma economia que, há mais de uma década, não consegue sustentar crescimento e renovação em escala.
Brasil entre as frotas mais antigas da região
O Brasil possui um dos parques automotores mais envelhecidos da América do Sul, embora não seja o mais antigo. A Colômbia, por exemplo, registra média superior a 17 anos e meio. A diferença, segundo o artigo, é que o Brasil conta com uma indústria automotiva de produção local significativa, o que torna o envelhecimento da frota um dado relevante do ponto de vista econômico e industrial.
Expansão até 2013 e queda após a crise
Até 2013, o mercado automotivo brasileiro vivia um ciclo de forte expansão. Em 2012, foram emplacados 3,8 milhões de veículos, enquanto a produção alcançou cerca de 3,7 milhões de unidades em 2013, impulsionada por crédito abundante, juros moderados e confiança no crescimento econômico.
A partir de 2015, com a recessão, aumento do desemprego e encarecimento do crédito, o ciclo foi interrompido. A produção não voltou aos níveis anteriores. Para 2025, as projeções da Anfavea apontam cerca de 2,75 milhões de unidades produzidas, volume inferior ao pico da década anterior.
Renda, crédito e adiamento da troca de veículos
O envelhecimento da frota está diretamente relacionado à perda de poder aquisitivo das famílias no período pós-crise. Embora a renda média real tenha crescido mais de 25% entre 2021 e 2024, segundo dados do IBGE citados no artigo, o impacto acumulado dos anos anteriores levou milhões de brasileiros a adiar a troca do veículo.
A participação de veículos com até cinco anos de uso diminuiu nos últimos dez anos, enquanto as faixas acima de 11 anos passaram a representar parcela maior da frota. De acordo com o autor, não se trata de falta de interesse na renovação, mas de limitações financeiras.
Restrições administrativas e efeitos colaterais
O artigo aponta que propostas de restrições mais rígidas ao licenciamento, inspeções severas ou impedimentos à circulação de veículos mais antigos, embora motivadas por preocupações com segurança e emissões, tendem a ser ineficazes sem melhora no poder de compra.
Segundo o professor, essas medidas podem incentivar a informalidade, com aumento de veículos sem documentação regular e manutenção adequada, agravando riscos à segurança e ao meio ambiente.
Estratégia das montadoras e impacto na renovação
As montadoras, segundo o texto, passaram a priorizar margens de lucro em vez de volume de vendas, concentrando-se em SUVs e picapes de maior valor agregado. Embora seja uma estratégia empresarial racional, essa mudança não contribui para o rejuvenescimento da frota.
O artigo observa que, em outros mercados, a introdução de veículos elétricos foi acompanhada por subsídios fiscais e expansão do transporte público, enquanto o segmento de carros populares perdeu espaço, especialmente fora de mercados regionais.
Envelhecimento da frota como indicador econômico
Na análise do professor Marcelo Alves, o envelhecimento persistente da frota veicular brasileira é um indicador da estagnação econômica de longo prazo. Enquanto não houver crescimento consistente da renda média, acesso mais equilibrado ao crédito e recuperação sustentável da produção e das vendas, a frota tende a continuar envelhecendo.

