Profissionais da saúde se arriscam diariamente para salvar vidas

Paloma Ribeiro Ferreira é enfermeira, trabalha na equipe de enfrentamento à Covid-19 na Santa Casa de São Roque há pouco mais de um mês e só vê a filha por vídeo chamada. Ela está na casa da avó para evitar o contato com Paloma, que atua na linha de frente dessa “guerra” contra o novo coronavírus. Medos, angústias, sacrifícios e renúncias que precisaram acontecer para milhares de pessoas que estão trabalhando diariamente em contato direto com o vírus. Na semana em que foi celebrado o Dia da Enfermagem (12 de maio), Paloma falou ao O Democrata sobre a nova rotina e as dificuldades que precisa encarar diariamente.

“É uma rotina diferente do que estávamos acostumados nos hospitais, o atendimento aos pacientes possuem protocolos específicos e redobramos a atenção com os procedimentos de segurança, porque o que mais nos preocupa, é transmitir o vírus aos nossos familiares, principalmente filhos e pais”, conta.

Segundo a profissional, praticamente todo mundo que trabalha na linha de frente continua praticando a segurança em casa e as precauções para manter a própria família a salvo exigem muito sacrifício e atenção. “Eu, por exemplo, ao chegar em casa, entro pela lavanderia tiro a roupa que fui para o hospital e já coloco para lavar e logo na sequência já vou para o banho. Por precaução, minha filha está ficando na casa da avó e só as vejo do portão ou por vídeo chamada. É difícil ficar longe, às vezes ela chora, mas o que me dá força é saber que isso é para o bem dela e quando tudo ficar bem voltaremos à vida normal. Outros profissionais também enfrentam situações difíceis, há colegas com filhos que ainda estão na fase da amamentação, que exigem outros cuidados, enfim, tudo para proteção da família”.

Paloma faz um alerta para todas as pessoas que podem ficar em casa neste momento. “A impressão que temos é de que parte da população ainda não entendeu a magnitude do problema e do cenário atual. Vou repetir o que tem sido dito desde o início da pandemia: leve as orientações a sério, fiquem em suas casas, evitem aglomeração, higienizem as mãos, usem máscara, protejam-se. De nada adianta nós passarmos por tudo isso, estarmos aqui na linha de frente, correr riscos para ajudar pessoas se todos não fizerem a sua parte”, apela.

Equipe de plantão na área de isolamento na Santa Casa em mais um dia de combate à Covid-19 (Foto: Arquivo pessoal)

Saúde mental

Na Santa Casa de São Roque um Plantão Psicológico foi disponibilizado para auxiliar os profissionais que necessitam de acolhimento emocional neste momento. A psicóloga Ana Carolina Morais Peroni conta que tem recebido com frequência profissionais que compartilham dos mesmos sentimentos. “São profissionais de todos os setores que me procuram diariamente com medo, angústia e desamparo. O sentimento comum é de estarem num mesmo barco à deriva num mar turbulento e cheio de dúvidas. Temem o futuro e precisam viver um dia de cada vez. Alguns colaboradores que perderam familiares e não puderam viver o luto, estão sofrendo muito, pois esse ritual é importante para elaborar essa perda na nossa cabeça” conta.

Paloma reforça, e diz que acredita que de alguma forma todo mundo tem o psicológico afetado, pois ver o avanço da doença, alterar o convívio com a família, a falta de respostas sobre quando tudo isso vai passar, gera ansiedade e sentimento de tristeza. “Temos que encontrar forças porque sabemos que muitas pessoas contam com o nosso trabalho. O acolhimento de uma psicóloga para a equipe e as discussões dos casos, permite que os profissionais se preparem melhor, tenham mais segurança em suas ações e nos procedimentos específicos e dessa forma ameniza o impacto psicológico no enfrentamento”.

Para Ana Carolina é preciso que as pessoas entendam que o profissional também está com medo e alerta para uma palavra que faz muita diferença neste momento, a empatia. “São pessoas que estão na linha de frente, deixam família, filhos, pais, irmãos. Estamos dando o nosso melhor. Empatia é extremamente importante, e nesse momento de hoje se faz muito necessária. Coloque-se no lugar do outro. Tanto o profissional quanto o paciente. O profissional também é um ser humano”.

A saúde mental de todas as pessoas também está em jogo e esse é um momento essencial de reflexão e ações responsáveis. “Continuem em casa. Nossa liberdade foi tirada, mas entenda que ficando em casa salvam-se muitas vidas. Organize a sua rotina, tenha um horário para acompanhar as notícias, distraia-se com seus filmes, brinque com os seus filhos. Procure ocupar a cabeça com momentos alegres também”, reforça a psicóloga.  

Profissionais infectados

O vereador Guto Issa falou em tribuna livre, durante a sessão online desta segunda-feira, 11, que recebeu informações de que diversos funcionários da Santa Casa estariam infectados pelo coronavírus. Entramos em contato com a Santa Casa para saber sobre tais afirmações e fomos informados que sobre os funcionários infectados, os números divulgados pelo vereador não procedem. A administradora do hospital, Andrea Rodrigues informou que a Santa Casa segue todos os protocolos, inclusive para coleta de exames dos colaboradores da Santa Casa, que não pode e nem vai expor colaboradores e familiares e reitera que todos os casos suspeitos que passam pelo Pronto Atendimento, sem exceção, são notificados à vigilância e estes são divulgados por meio dos boletins do Departamento de Saúde.

Durante pronunciamento na terça-feira, 12, a diretora de Saúde Daniela Dias Groke disse que é comum e é de se esperar que tenhamos profissionais as saúde com suspeita ou confirmação de coronavírus. “Desde o início das confirmações, alguns profissionais dos postos também positivaram para a doença. Na Santa Casa são 4 casos confirmados e felizmente nenhum precisou ser hospitalizado” informou.