Uma cidade em revolução

Se ao Estado de São Paulo não faltam motivos para celebrar a Revolução Constitucionalista de 1932, com São Roque não é diferente.

Felizmente, após muitos noves de julho silenciosos e indiferentes à grandiosidade dessa data, a marcante e valorosa participação de mais de uma centena de são-roquenses nas trincheiras revolucionárias e o envolvimento de toda a cidade no movimento que pretendia devolver ao País sua Constituição voltou a ser celebrado, de maneira condizente com sua importância, graças ao Comando da Polícia Militar de São Roque, que desde 2016 inseriu em seu calendário a comemoração da Revolução Constitucionalista de 1932.

O dia 9 de julho não pode passar em branco porque a comunidade são-roquense foi valente e “acudiu desde logo ao brado das armas e iniciou o movimento de alistamento de seus filhos”  nesse histórico episódio, conforme relata a ata da primeira reunião da Comissão de Alistamento do Voluntariado Civil do Município de São Roque, publicada no jornal “O Democrata”, de 17 de julho de 1932.

Basileu Garcia, jurista de renome e membro da Comissão de Propaganda da “Bandeira Cívica Paulista”, grupo que conclamava os paulistas ao combate, esteve na cidade com uma caravana de líderes revolucionários, em 12 de julho de 1932, e aqui realizou grande comício, no Cine Theatro Central, para sensibilizar a população a aderir aos ideais da revolução, e fez publicar uma convocação, nas páginas deste centenário jornal:

“Sabei, conterrâneos de São Roque, que a vossa inscrição no alistamento dos propugnadores da grande causa, que já tendes ciência de ser indispensável e que, desde o alvorecer da refrega, já cuidáveis de realizar, tem de ser rápida, tem de se processar sem detença, tem de ser fulminante”.

Os são-roquenses agiram nos exatos termos da convocação: rápidos, sem detenças e fulminantes, reuniram seus melhores esforços e juntaram-se aos demais paulistas contra a ditadura Vargas e em favor da legalidade, pois não toleravam ver a nação privada de sua Constituição, anulada em 1930 por Getúlio Vargas, que tomou o poder, dissolveu o Congresso Nacional, cassou governadores e prefeitos e nomeou interventores para dirigir estados e cidades.

A revolução era, sobretudo, em favor da democracia.

Os dois postos de alistamento instalados em São Roque, na Prefeitura Municipal  e na Delegacia de Polícia, em poucos dias receberam inscrições de mais de cem voluntários civis, dispostos a dar a vida nos combates.

Em apenas uma semana, 39 voluntários foram encaminhados pela Comissão de Alistamento aos postos de concentração de combatentes de São Paulo e do interior do Estado, em Itapetininga e Itu.

No dia 20 de julho de 1932, diante da antiga Prefeitura, a Comissão de Alistamento do Voluntariado Civil de São Roque despediu-se de seus combatentes, felicitou-os calorosamente por seu ato de patriotismo e amor a São Paulo e ao Brasil e pediu a Deus que os amparasse no caminho da vitória.

Diante da Igreja Matriz, o professorado e alunos do Grupo Escolar “Dr. Bernardino de Campos” cantaram o Hino Nacional, sob aplausos da multidão, e as meninas distribuíram cigarros aos voluntários que, em  seguida, rumaram ao interior da igreja, onde o vigário, Padre Silvestre Murari, dirigiu-lhes comovente exortação.

Por fim, responderam à chamada e embarcaram nos caminhões que os conduziram aos batalhões.

Nos dias que se seguiram, outros contingentes partiram para as batalhas.

Enquanto os moços de São Roque lutavam, a comunidade mobilizava-se para sustento da causa cívica e das famílias dos combatentes. A cidade inteira viu-se em revolução.

As mulheres promoviam atividades beneficentes, como chás dançantes, para angariar fundos para compra de tecidos para confecção de fardamentos e mantimentos e outros gêneros necessários às provisões das famílias dos lutadores.

A velha igreja de São Benedito foi o quartel general da costura, onde as mulheres cosiam uniformes dos soldados e neles bordavam palavras de incentivo e afeto, para que, lidas no campo de batalha, acalentassem-lhes os corações.

Campanhas de arrecadação de dinheiro mobilizavam até as crianças, que de boa vontade entregavam seus cofrinhos e moedas para aquisição de capacetes de aço aos guerreiros!

O Cine Theatro Central exibia filmes cuja renda era destinada à causa; este jornal imprimiu panfletos gratuitamente; armas, ouro e dinheiro eram coletados e enviados à direção do movimento, em São Paulo; e as tecelagens estabelecidas na cidade liberaram seus empregados para a luta, mantendo-lhes o ordenado para sustentar suas famílias durante a revolução e a vaga de emprego ao término do combate.

Após três meses de batalhas, os paulistas foram rendidos pelas forças federais, quando todos os combatentes são-roquenses regressaram à cidade.

Essa luta não foi em vão, pois em 1934 o Brasil teve sua nova Constituição.

Vivas à memória e bravura dos revolucionários de São Roque!

– Crônica lida a convite do Comandante da Polícia Militar em São Roque, Capitão Ricardo Ceoloni, durante solenidade alusiva à Revolução Constitucionalista de 1932, realizada ontem.