“FÉ NA VIDA”

Todos têm “momentos-chave” nas nossas vidas, daqueles que mudam definitivamente o curso das mesmas. Eu tenho três ou quatro desses momentos em 46 anos de vida e 18 de carreira. E o mais interessante é que as pessoas que, nesses momentos decisivos influenciaram o meu rumo, não fazem a menor ideia de o terem feito.

Vivo com esses pequenos segredos há muito, mas pouco tinha parado para pensar que o oposto pode também suceder: que eu possa ter influenciado decisivamente a vida de alguém sem fazer a menor ideia disso. Até que esse alguém nos conta. Foi o que me aconteceu exatamente no dia que estava escrevendo esta matéria. Estava num dia emocionalmente difícil quando recebi um telefonema. Do outro lado ouvi a voz de um rapaz: “Por favor, posso falar com o professor Rogério?”. Fazia tempo que não alguém me chamava de professor e confesso que achei que era uma pegadinha. Foi quando a voz me disse que seu nome era Adriano e ele tinha sido meu aluno em um dos projetos socioeducacionais que atuei como professor de música.

Por quinze minutos viajei no tempo. “Durante os dois anos que estudei no projeto você me viu chorando e sempre vinha me perguntar o que estava acontecendo. Te contava das minhas questões familiares, dos perrengues financeiros e dúvidas do que ser na vida. Lembro que você me disse que a minha sensibilidade era o que mais tinha de precioso e que isso ninguém iria tirar de mim. Pois, é. Eu acreditei. Hoje tenho 36 anos e só agora pude estudar. Acabo de me formar na USP como bacharel em música e cantei a ‘Nunca pare de Sonhar’, do Gonzaguinha. A mesma que você escreveu no meu caderno no último dia de aula. Era minha forma de te agradecer, mesmo que em pensamento,  por ter me ajudado a ser o que sou hoje. Repito suas palavras para meu filho todos os dias. Não sei se ele será um artista mas quero que ele seja um bom ser humano”.

Claro que isso não me faz ser o cara e nem um exemplo para ninguém. Mas me fez pensar como os educadores tem uma responsabilidade enorme na influência que tem sobre seus alunos. Fez-me ser mais grato ainda pelas pessoas que me influenciaram e influenciam a ser cada dia melhor. Fortaleceu minha crença que a arte pode sim mudar a vida de pessoas se for tratada como essencial e não como a cereja do bolo. “Obrigado, Adriano. Você também me fez ser uma pessoa mais feliz.”

Rogério Alves – maestro e produtor cultural