A economia e a saúde em cima do muro

A Nova Zelândia é um dos países que melhor está gerenciando a epidemia de coronavírus. O país reportou até o dia 11 de abril um total de 1.312 casos. Entre esses, apenas 14 estavam no hospital e 422 já se recuperaram. A população da ilha é pouco menor que 5 milhões de habitantes. O que dá uma taxa de contágio de aproximadamente 0,02% da população. Mas não é só isso. Conseguiram um feito que muitos países custam para alcançar: uma redução do número diário de casos por quatro dias consecutivos e apenas quatro mortes.

Como a Nova Zelândia conseguiu números tão expressivos no combate e que lições podemos tirar disso? Ao contrário de alguns países europeus que pensam em aliviar as medidas de contenção, a Nova Zelândia está reforçando as restrições, sobretudo para os cidadãos que estão voltando ao país.  A primeira-ministra Jacinda Ardern tem sido amplamente elogiada por sua liderança durante a crise do coronavírus, tanto pela resposta rápida quanto pela abordagem mais humanizada da crise. E, ao contrário do que está ocorrendo em outros países, brigas políticas não atrapalharam o gerenciamento da crise pelo governo. O país tem sido rápido em testar e isolar a população, até então o país já testou 51.165 pessoas, numa média de 3.547 por dia.

Outro diferencial é que o país também adotou a quarentena, ou lockdown, desde 23 de março, quando ainda não havia sequer uma morte relatada e 48 horas depois o nível de alerta 4 entrou em ação, que significa que uma pessoa só pode ter contato presencial com pessoas em sua casa e não pode ter contato com outras pessoas fora dela. Não há problema de as pessoas entregarem alimentos e suprimentos, mas precisam deixá-los à porta e evitar o contato com todos os membros da família. Isolamento total. Mercado delivery, farmácia delivery. Todos dentro de casa.

O diretor geral de Saúde, Ashley Bloomfield, afirma que o objetivo do país é eliminar o vírus rapidamente e isolar casos que porventura possam ocorrer no futuro. Ou seja, em vez de retardar o contágio (ou, na palavra da moda, diminuir a sua curva), ou mesmo criar imunidade de rebanho, o país quer, com essas medidas mais agressivas, eliminar o vírus de suas fronteiras.

Por outro lado China e Dinamarca tentam retomar a rotina sem o isolamento. Dois países cujos sistemas de saúde foram devastados pela pandemia, Itália e Espanha, também deram sinal verde para uma retomada gradual de alguns serviços não essenciais, na aposta de que já superaram o pior. Por enquanto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) diz ver com preocupação as medidas que relaxem o isolamento social por pressões econômicas. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, diz temer que isso resulte em uma “reaparição mortal” do novo coronavírus.

Pressionar o sistema de saúde pelo medo dos problemas com a economia não resolve nem uma coisa nem outra. Em nossa região estamos vendo as coisas acontecerem “pela metade”. Uma quarentena que é cumprida parcialmente, um comércio que funciona parcialmente. Consequentemente continuamos expostos em grandes chances a um aumento rápido de casos ou a quebra total da economia. Um isolamento “completo” seria possível como na Nova Zelândia para eliminarmos o vírus? Uma abertura cautelosa seria possível fazendo novamente a economia girar? Perguntas difíceis de serem respondidas, pois nossa cultura é muito diferente. Mas uma coisa é certa: pulso firme nesse momento é muito necessário. As decisões precisam ser levadas adiante com clareza e certeza.