Aprendizes

Outra vez é tempo de volta às aulas, com sua habitual intensidade de preparativos a envolver pais, professores e alunos em um turbilhão de gastos, planejamentos e, sobretudo, coragem e disciplina necessárias a enfrentar e, sobretudo, vencer mais um ano letivo.

No mundo escolar de hoje, as grandes preocupações que no passado norteavam pais, professores e alunos têm outro contorno.

Os estudantes de outros tempos tinham como maior desafio evitar a reprovação, já que a pecha de “repetente” era uma espécie de chaga aberta na fronte dos alunos, a gerar repulsa em colegas e professores e reprimendas drásticas por parte dos pais mais severos.

Os professores, por sua vez, em geral bem formados e seguros da importância do papel que desempenhavam e do valor que a sociedade lhes atribuía e era refletida no respeito com que eram tratados por alunos e pais, tinham como preocupação máxima transmitir conhecimentos aos estudantes, da maneira mais efetiva.

Por sua vez, aos pais cabia, basicamente, a tarefa de levar os filhos à escola e prover-lhes o material e, quiçá, o pagamento das mensalidades, quando optavam por matricular as crianças em colégios particulares. Quanto ao mais, ficavam descansados, pois sabiam que os filhos estavam seguros.

Guardo uma lembrança que parece bem ilustrar essa dinâmica. À véspera de meu primeiro dia de aula, no velho “Dr. Bernardino de Campos”, minha mãe pôs-me sentada diante dela e disse:

“Amanhã começam suas aulas. Obedeça a professora em tudo. Ai de você se eu receber alguma reclamação sobre seu comportamento”.

Apesar dessa rigidez, a vida escolar era mais tranquila para todos. Os compromissos dos alunos do passado se limitavam a ir à escola, fazer lições de casa e estudar para provas. Os professores ocupavam-se em preparar aulas e corrigir cadernos e avaliações, enquanto os pais monitoravam tudo isso a certa distância.

Se a reprova era a maior das preocupações estudantis, “colar” era o mais grave e audacioso dos delitos, a exigir criatividade, paciência e serenidade para desenvolver e aplicar métodos os mais variados para burlar a atenção dos professores no momento dos exames.

À época em que não havia computadores ao dispor dos estudantes, tudo se fazia de maneira praticamente artesanal, letra por letra, número por número, traço por traço, nas diversas disciplinas que compunham as grades curriculares. Copiar algo mediante um simples toque digital, como proporciona a informática de hoje, era imaginado somente por aqueles mais visionários, ligados em ficção científica.

Esse contínuo, por vezes exaustivo, ler e escrever, levava os estudantes, pouco a pouco, a assimilar a grafia correta das palavras e as regras para coordená-las de maneira adequada nas frases, as tabuadas, as datas históricas e tantas informações mais. O corretor de textos, hoje disponível em qualquer computador ou telefone celular, era a temida caneta vermelha do professor, muito mais eficiente, por sinal.

Na vida escolar de hoje, os alunos não se abalam muito com o outrora assustador fantasma da reprovação. Porém, forjados pelo imediatismo do mundo digital, são reféns da impaciência que dificulta o aprendizado, pois a calma e a concentração mais demorada que o aprender  exige não se mostram tão presentes em outros momentos de suas vidas, seja no convívio familiar ou nas brincadeiras do século XXI.

Há que considerar também que muitas escolas tornaram-se um campo de batalha, onde os alunos são incentivados, desde muito cedo, a disputar espaços e superarem colegas, para assim estarem preparados para enfrentar vestibulares de ingresso às faculdades mais concorridas e o competitivo mercado de trabalho. Há, ainda, as disputas, veladas ou ostensivas, pela popularidade e os casos de “bullyng”, considerados um problema escolar crônico, a desafiar professores, pedagogos, psicólogos, pais e alunos.

Hoje os professores são desafiados continuamente a encontrar um modo motivador e inovador de transmitir conhecimentos que capte a atenção dos alunos, numa espécie de concorrência desleal entre o ensino e todos os atrativos virtuais ao alcance de crianças e adolescentes.

Professores, alunos e pais vivem no cotidiano escolar experiências ligadas ao tráfico e ao uso de drogas, vandalismo e a violência em suas mais variadas formas, da agressão física à moral, provocadas por toda sorte de intolerâncias.

Nas escolas públicas, vive-se a miséria da falta de recursos alegada por todas as esferas de governo, que desestimula professores e alunos pela precariedade de salários, instalações e material, enquanto nos colégios da rede privada as mensalidades elevadas e a impossibilidade de oferecer aos filhos o mesmo padrão financeiro dos colegas abastados endividam e assombram muitos pais.

A vida escolar tornou-se uma intrincada relação social em que todos são apenas aprendizes, não importa se professores, alunos ou pais.

Simone Judica é advogada, jornalista e colunista de O Democrata (simonejudica@gmail.com.br).

Esta coluna tem o patrocínio de Cambalhota Educação Infantil

 

 

Texto: Simone Judica