“Elas olham… Assim que a guerra acabar eu volto para cá”. | O Democrata

Minhas amigas,

Antes de escrever esta coluna, refleti muito. Quis esperar o tempo amainar a minha revolta, curar meus ouvidos para permitir que minhas palavras expressem com precisão a dimensão do que passamos na semana do Dia das Mulheres.

Não volto aqui aos números comprovadores do risco que brasileiras correm dentro de suas casas: estupro, morte, agressões psicológicas. Não tenho espaço para isso.

Também não trarei os números internacionais a respeito da desproporcionalidade do risco sofrido por mulheres e crianças em deslocamento migratório. Crianças e mulheres, especialmente sozinhas, são alvos de traficantes de pessoas mundo a fora. Prostituição, venda de órgãos e todo tipo de perversidade são impostas a seus corpos – que objetificados são usados como instrumento. Também não tenho espaço.

Eu percebi que tenho pouco espaço.

Infelizmente, desconfio não ser só eu. Temos pouco espaço para expressarmos nossos medos, angústias e falar das agressões sofridas.

Arthur do Val e Renan Santos, ídolo de Arthur e referido nos áudios vazados, são homens com voz, plateia e influência. Arthur foi o segundo deputado estadual mais votado no estado. Sua representatividade é enorme.

Renan Santos é idealizador de movimento conservador, raivoso e, orgulhosamente, ensina: “não vá para as cidades litorâneas (do leste europeu), vá para o interior. Lá, é mais fácil pegar mulheres”.

Arthur do Val se desculpa dizendo da “molecagem” de homem com 35 anos, representante de milhares de paulistas e brasileiros. Também tem opinião sobre assédio sexual sofrido por deputada, cujo resultado foi um puxão de orelhas …então por que ele vai perder o mandato? Ele só foi um moleque falando baixarias…

Agora, se diz assustado. Vem recebendo ameaças. “As coisas foram um pouco longe demais”.

Por que só agora ele acha que as coisas foram longe demais?

Mulheres na política são ameaçadas cotidianamente – e nunca soube de qualquer apoio de Arthur a elas. Várias já deixaram o país.

O caso mais emblemático é o de Manuela Dávila. As ameaças de morte atingiram sua filha, recém-nascida, e hoje se transformaram em ameaças de estupro da menina.

Não temos espaços, minhas amigas, nem horizonte.

Por aqui, somos habituadas a não olhar diretamente para um homem. Por quê?

Se fôssemos livres em nosso olhar, por que Arthurzinho ficaria tão surpreso com o olhar de outras mulheres?

O tempo é agora, minhas amigas.

É momento de nos posicionarmos contra este tipo de fala: a intransigência é necessária.

E o Judiciário tem e vai nos ouvir cada vez mais.

Em ano eleitoral, vamos eleger mais mulheres.

Nós por nós mesmas, sempre.

Estamos juntas.

​​​​Julie Kohlmann é Doutoranda em Filosofia do Direito, Mestre em Direito Civil, Especialista em Direito Penal e Associada ao IBDFAM – @juliekohlmannadvogada

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