Leis são somas de palavras | O Democrata

Muitas, muitas mulheres me perguntam: mas, Julie, isso não é exagero? Na minha época, não era assim. E todo mundo sobreviveu.

Bom, sem querer fazer sangrar nossas feridas, mas já que me perguntaram, vou dizer o que vejo através não só de números, mas também em homenagem às amigas doentes, perdidas – vivas ou mortas; em reconhecimento à fome que insiste nos semáforos, às filas nos postos de saúde.

Como assim nós sobrevivemos? Eu sobrevivi, você sobreviveu – até porque estamos questionando o sofrimento que testemunhamos há anos.

E não se engane.                               

Não te julgo.

Eu te entendo.

Porque, posso dizer de cadeira, que esconder sofrimento, dor, desmoronamento pessoal é o que qualquer ser vivo faz. Qualquer um. Desde Barack Obama até minha gatinha que agora senta sobre meu computador. Minha paineira transplantada está, neste momento, fazendo isto: perdeu todas as folhas, mas está de pé.

Estamos de pé porque demos um jeito, que sai caro – mas Iemanjá, no meu caso, aceitou dividir em parcelas a perder de vista: confesso que não sei o motivo, mas sei que os juros estão aí nos meus joelhos, na dor de minhas juntas, na minha lombar que grita quando passo tanto tempo sentada. Nas lembranças que fazem chorar de saudade.

Mas como diz, Andrea Pachá (juíza carioca), a vida não é justa e pessoas belíssimas, especialíssimas sucumbiram. Sucumbem todos os dias. Vamos a uns dados esquisitos: o Brasil é um dos países que mais consomem ansiolíticos – são 56,6 milhões de caixas de medicamento no ano 2020 (em 2015 foi mais ainda em torno de 70 milhões de caixas).

Não somos um país que possa se orgulhar do tratamento de mulheres e crianças, pessoas com deficiências e muito menos da população indígena ou da negra.

Não preciso falar aqui da garotinha indígena de 12 anos estuprada e morta por garimpeiros e nem o caso da trabalhadora negra que ouviu: não encoste seu cabelo em mim porque ele transmite doença.

Minhas amigas, chega, né?

Por que tudo isso? Como chegamos a este ponto?

Pensemos muito bem no tipo de exemplo que queremos.

Que tipo de pessoas queremos falando por nós?  Palavras são importantes.

Leis são palavras somadas.

Vamos nos somar a partir delas.

Nossas leis são a fogueira que alimentam nosso conforto, a claridade na escuridão.

Sejamos intransigentes na conservação desta luz civilizatória – a Lei nos fortalece a enfrentar com dignidade o que tem de ser mudado. Nosso sofrimento está grande.

Poderia ser menor.

Sigamos, minhas amigas. Precisamos umas das outras.

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