São Roque: pedacinho da Itália

Quando junho chega, gosto de recordar o significado especial deste mês para a colônia italiana estabelecida em São Roque.

Italianos e seus descendentes, que estão em São Roque desde o final do século XIX, em 1º de abril de 1996 passaram a oficialmente celebrar o “Dia da Comunidade Italiana”, com comemorações voltadas ao calendário escolar, turístico e cultural do Município, além de uma sessão solene na Câmara Municipal, na qual o Poder Legislativo confere a cidadania são-roquense a um dos italianos aqui residentes.

Dois de junho não é festa somente para a colônia italiana em São Roque. Esse também é o dia comemorativo da Festa Nacional da República Italiana, pois, em 1946, cerca de um ano após o término da Segunda Guerra Mundial, vencidas duas décadas de regime fascista e vividos 85 anos em um sistema monarquista de governo na Itália, os italianos – e pela primeira vez também as italianas – foram às urnas decidir se o país permaneceria como uma monarquia ou se tornaria uma república.

Venceu a república e a Itália passou a ser parlamentarista e finalmente conquistou sua Constituição.

Italianos em todo o mundo festejam essa data e por isso a colônia presente em São Roque se mobilizou para unir-se aos patrícios nessa festa. Assim, 2 de junho foi eleito o “Dia da Comunidade Italiana”.

Vale ressaltar que o “Dia da Comunidade Italiana” em São Roque não é uma mera comemoração saudosista, mas, sim, o reconhecimento devido e legítimo a um povo que, há mais de um século, faz por merecer a honra de ser agraciado com um dia exclusivo para a celebração de sua presença marcante e efetiva na cidade, pautada no trabalho, na dedicação às boas causas e no compromisso de transformar esta terra em sua pátria.

O industrial italiano Enrico Dell’Acqua pode ser considerado o patrono da comunidade italiana em São Roque, pois foi a partir de sua chegada à cidade, para aqui estabelecer a tecelagem Enrico Dell’Acqua e Cia., depois denominada Brasital, que os italianos começaram a desembarcar e fazer morada por aqui.

Em 1890, Dell’Acqua comprou o terreno onde se edificou a fábrica Brasital. Muitos de seus conterrâneos seguiram-no até aqui, para trabalhar na construção das instalações da empresa ou para serem diretores e operários da grande tecelagem que nascia, segundo relata o Professor Joaquim da Silveira Santos, na obra “São Roque de Outrora”.

Com a chegada dos italianos e a imponente edificação da Brasital, a cidade cresceu, o comércio, as construções, a vida social e cultural ampliaram-se de modo significativo, pois os estrangeiros não vinham passar uma temporada, mas, sim, aqui se estabeleciam com o intuito de fixar residência definitiva e fazer desta terra um bom lugar para si mesmos, sua família e sua comunidade.

Os são-roquenses, por sua vez, receberam os italianos de braços abertos e não titubearam em acolhê-los em seus círculos sociais, em seus lares e em suas famílias, contraindo muitos casamentos com os recém-chegados e seus descendentes.

O Professor Silveira não poupa as tintas do entusiasmo ao relatar o alvoroço causado pela chegada da Brasital e dos italianos: São Roque foi invadida “…por uma febre de construção, alastrando-se não só pelas zonas recentemente abertas como enchendo os claros do centro urbano.”

Ruas da área central, onde não havia qualquer construção, “…foram se povoando quase simultaneamente. O comércio acompanhou este movimento geral, tomando nele os italianos assinalado relevo: padarias, barbearias, açougues, fábricas de macarrão e de cerveja, casas comerciais de todos os ramos, oficinas de alfaiates, ferreiros, sapateiros – em todos os gêneros de atividades figuravam eles, e prosperavam.
…Pertencendo como nós à raça latina, eles se adaptavam à nossa vida, tomavam os nossos costumes. (…) Assim, foi grande e real o acervo de serviços que nossa terra recebeu do elemento italiano”, conclui o historiador.

Expressiva quantidade de italianos também chegou a São Roque no pós-guerra dos anos 1940, para escapar às dificuldades que assolavam a Europa. Esse grupo também aqui encontrou abrigo, trabalho e afeto e soube conquistar seu espaço e assim desenvolver uma trajetória próspera para si mesmos, sua colônia e a cidade.

Ainda é possível encontrar alguns desses imigrantes pela cidade e também durante os eventos promovidos pela Associação Ítalo Brasileira de São Roque, como a tradicional festa italiana, que acontecerá nos dias 30 de junho e 1 de julho próximos.

Dessas memórias e desses personagens é que se constrói e se renova, a cada ano, a celebração do “Dia da Comunidade Italiana” em São Roque.

Parabéns aos italianos e seus descendentes, que fazem de São Roque mais um pedacinho da Itália espalhado no mundo.

Simone Judica é advogada, jornalista e colunista de O Democrata (simonejudica@gmail.com)