Brasil abre as portas para uma nação de refugiados

A grave crise econômica, política e social, aliada a repressão das forças do presidente Nicolás Maduro, obriga milhares de pessoas a deixarem a Venezuela. Além da criminalidade crescente, a falta de comida em supermercados cria uma realidade difícil de ser superada. Para os venezuelanos que atravessam a fronteira, o Brasil se torna a esperança de um futuro mais livre e com melhor qualidade de vida. De janeiro a julho deste ano, 7,8 mil cidadãos daquele país entraram com pedidos de refúgio no Brasil. Ano passado, o número de solicitações com o mesmo intuito foi de 3,3 mil em todos os estados. Os números fazem da nação a escolha número um dos venezuelanos entre os países da América Latina.

Qualquer emigrante que venha de uma nação que faça fronteira com o Brasil pode solicitar visto de residência temporária no país — que vale por dois anos — podendo ser renovado após o período. No entanto, como fogem de uma situação de crise, e até de perseguição política, o povo da Venezuela pode ser enquadrado na condição de refugiados, o que concede residência permanente, caso o processo seja aprovado pela Secretaria Nacional de Justiça ou pela Polícia Federal. O requerimento pode ser feito na entrada no território nacional por via terrestre. O Brasil tem 12.960 solicitações deste tipo em andamento, atrás apenas dos Estados Unidos, que registram 18 mil pedidos em tramitação.

Por fazer fronteira com a Venezuela, Roraima é porta de entrada dos emigrantes. Somente a Superintendência da Polícia Federal na unidade da Federação recebeu 6.438 pedidos de refúgio neste ano. No entanto, após entrar no país, os refugiados seguem para outros lugares, como São Paulo e Distrito Federal. Eles vão em busca de vagas no mercado de trabalho, oportunidades de estudo e local de moradia.

Um grupo de quatro refugiados venezuelanos encontrou em uma churrascaria tradicional de Brasília a oportunidade de deixar para trás a fome, a falta de recursos financeiros e as cenas de violência que viram na terra natal. O garçom Johanny Gonzales, 25 anos, foi o primeiro do grupo a chegar no DF. “Percebi que não dava mais para ficar lá quando começou a faltar coisas básicas, como papel higiênico e carnes. Um amigo que mora em Águas Lindas (GO) me ajudou com a passagem. Aqui, encontrei uma vida melhor. Tenho dinheiro para comprar comida e adquirir minhas coisas”, afirma.

Johanny lamenta pelos familiares que estão no país vizinho, mas comemora o fato de poder ajudar a família. “Minha irmã ainda está lá e a situação é cada vez pior, mas daqui posso enviar ajuda financeira. O Brasil é um país maravilhoso, com oportunidades. As pessoas são muito acolhedoras. Pretendo voltar à Venezuela como turista, mas vou me casar e viver aqui”, completa ele, que está no Brasil há dois anos. O amigo dele, Jacinto Maza, 27, veio ao Brasil com a mulher logo em seguida. “A crise lá atingiu o país inteiro. Então, resolvemos vir para Brasília e construir nossa vida de novo para mandar ajuda para os que lá ficaram”, conta.

Grande parte dos migrantes que chegam da Venezuela tem boa formação profissional. Isso facilita a contratação por uma empresa em território nacional. De acordo com dados fornecidos pelos próprios refugiados, 17% são estudantes que pretendem continuar se capacitando no Brasil. Na lista das profissões mais exercidas, engenheiro aparece em primeiro lugar, representando 6% do grupo. Os médicos são 4%, seguidos por professores, que somam 3%.

Esperança

A auxiliar administrativa Alexandra Elizabeth Perez, 25, veio morar no Distrito Federal com o marido, Edim Daniel Mendonza, após enfrentar necessidades na nação vizinha. “Chegou um momento em que você podia ir ao mercado apenas um dia na semana. E as pessoas acham que é assim no mundo todo, pois são doutrinadas na escola desde pequenas. Aqui no Brasil a vida é ótima. Você vai à padaria e tem pão”, conta ao lado das filhas, que, há um ano e meio, estudam na rede pública de ensino do DF.

Alexandra vendeu tudo que tinha para comprar a passagem e entrar por terra na fronteira em Roraima. A venda dos móveis e eletrodomésticos rendeu 37 mil bolívares. Ao chegar ao Brasil, ela descobriu que tudo que arrecadou só rendia R$ 700. O marido reclama do aumento da criminalidade nas ruas do país de Maduro. “Um dia, saí para comprar algo para comer, quando estava chegando em casa fui assaltado e levaram a pizza que eu comprei. Não dá mais para viver lá”, desabafa.

O porta-voz do Alto Comissariado da Organização das Nações Unidas (ONU) para Refugiados, Luis Fernando Godinho, destaca que muitos emigrantes chegam em situação de fragilidade. “Com o aprofundamento da crise, o número de pedidos de refúgio está aumentando. Alguns grupos, como os indígenas, chegam em situação de extrema vulnerabilidade. Outros chegam com um planejamento melhor, mais estrutura ou com alguém para ajudar. Independentemente da situação, é papel histórico do Brasil acolher quem precisa de ajuda”, ressalta.

A legislação brasileira permite que os estrangeiros que obtêm o visto temporário retirem todos os documentos. É permitido trabalhar no Brasil com carteira assinada, matricular os filhos em escolas e até mesmo receber benefício social do governo. A fim de resolver as pendências burocráticas, muitos venezuelanos viajam para o Distrito Federal, onde o atendimento é mais rápido na maioria dos casos. Ao encontrar oportunidades, optam por viver na capital do país.