Pinturas, esculturas e gravuras formam acervo artístico da Assembleia Legislativa de São Paulo

Esculturas de Agi Straus e Domenico Calabrone; pinturas com tinta a óleo de Waldomiro de Deus e Martins de Porangaba; a litogravura de Sara Goldman Belz. Essas são algumas das 1.502 obras que compõem o Acervo Artístico da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e que serão expostas ao público graças a um projeto inédito de revitalização.

Iniciado em janeiro deste ano, o plano de gestão para a organização, higienização, catalogação e redistribuição das obras com base em critérios museológicos, feito pela primeira vez no Parlamento, havia contemplado cerca de 1.445 obras até o início desta semana.

Ao final do trabalho, que deve ser concluído nos próximos meses, a equipe responsável pelo processo deverá deixar pronto um projeto de exposição, e as obras mais importantes e de elevado valor artístico serão mais uma atração cultural a ser apreciada na capital paulista.

Alan Oliveira, que é gestor da Divisão de Comunicação Social da Assembleia, setor que incorporou o acervo, conta que a ideia é realizar uma curadoria para organizar as obras de forma temática e alocar as mais significativas no espaço térreo e nos mezaninos superiores da entrada de público do Palácio 9 de Julho, sede do Parlamento.

“A nossa intenção é ocupar a entrada do endereço oficial da Assembleia, que é a nossa portaria da avenida Pedro Álvares Cabral, número 201, de frente para o Parque do Ibirapuera, do primeiro até o terceiro andar. Então o visitante que chegar pelo endereço oficial da Assembleia vai ser inserido diretamente em um espaço de relevância cultural e artística, como é o próprio palácio em si”, afirma.

A referência de Oliveira ao Palácio 9 de Julho foi feita pelo fato de a edificação já ter sido projetada com espaços para exposições, e estar próxima de outras instituições culturais, como o Museu Afro Brasil, o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) e o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP). Além disso, o próprio prédio é considerado por lei um patrimônio cultural do Estado.

Após a pandemia, a experiência artística de uma visita ao Parlamento poderá ser enriquecida também com exposições de curta duração em espaços internos do prédio. “A ideia é ter uma movimentação cultural ao longo de todo o ano tão logo a gente possa”, explica o gestor da Divisão de Comunicação Social. Atualmente, a sede do Legislativo está fechada para visitações.

Obras

Criado em agosto de 2002 com apenas 71 obras, o acervo cresceu por meio de doações e, hoje, conta com pinturas, esculturas, fotografias, gravuras, xilogravuras, litogravuras, colagens, vitrais, entre outros trabalhos produzidos por artistas de pelo menos 31 países, de acordo com dados contabilizados até o início de maio pela equipe contratada para a recuperação e catalogação do acervo.

A responsável pelo trabalho é Cecilia Machado, museóloga e professora e coordenadora do curso de museologia da Etec (Escola Técnica Estadual) Parque da Juventude, em São Paulo. Ela conta ter se surpreendido positivamente com as obras presentes no Legislativo. “As doações do MAM e da Glatt eram algo que a gente não fazia ideia que existia, foi uma surpresa muito interessante”, conta a museóloga.

Todas as fotografias doadas pelo museu são de artistas renomados, segundo ela. As doações feitas pela Glatt, empresa que produz gravuras, também são relevantes. “Talvez os melhores gravuristas estejam aqui. São duas coleções de artistas brasileiros com obras importantíssimas que a Assembleia tem”, avalia.

Entre as fotografias é possível apreciar imagens de Vicente de Mello, German Lorca, Rosângela Rennó, e Romulo Fialdini, enquanto alguns gravuristas são Renina Katz, Maria Bonomi, Luiz Sacilotto, Hércules Barsotti, e Edson Vieira.

A galeria de presidentes da Assembleia, que começou a ser constituída há mais de 100 anos com retratos pintados por Oscar Pereira da Silva, é outra curiosidade do acervo. “Oscar Pereira da Silva é um pintor e retratista importante da história da pintura brasileira. Ele nasceu em meados do século 19, morreu em 1939 e possui obras representando cenas históricas de São Paulo presentes no acervo do Museu do Ipiranga, por exemplo”, ressalta Oliveira.

Artistas

Entre os considerados pela museóloga Cecilia Machado como alguns dos principais artistas do acervo, está Martins de Porangaba, 77, que é pintor, desenhista, gravador, professor de artes plásticas e fundador do Atelier J. Martins. Participou de exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior. Porangaba tem duas pinturas na Assembleia paulista: a pintura abstrata “Entre as flores”, feita com tinta acrílica, e “Vista do Interior”, com tinta a óleo.

Enquanto o pintor e desenhista Waldomiro de Deus, 77, retratou o ataque às torres gêmeas na pintura intitulada “Os vírus estão chegando”, feita em tela com tinta a óleo. O artista possui duas obras no Legislativo, mas somente uma foi catalogada até o momento. Ele é considerado um dos maiores primitivistas brasileiros e recebeu o prêmio Awarding the Statue of Victory na Itália. Começou a pintar com tinta guache e cartolina, e vendeu sua primeira obra em uma exposição no viaduto do Chá. Já se envolveu em polêmicas por pintar, por exemplo, Nossa Senhora com saias curtas e Jesus de bermuda.

Sara Goldman Belz é pintora, gravadora, desenhista, ilustradora, curadora, artista multimídia e poeta. Três obras de sua autoria integram o acervo do Parlamento, sendo duas pinturas (“Pastoral Noturna”, de tinta a óleo, e “O Leque” em placa de madeira, fibra de vidro e tinta acrílica), e uma litogravura (Muito Prazer). Já foi diretora do Paço das Artes, assessora da Secretaria de Estado da Cultura e presidente da Associação Profissional dos Artistas Plásticos do Estado de São Paulo (Apap).

Agi Straus é o pseudônimo adotado pela pintora, desenhista, gravadora, escultora e ilustradora austríaca Agathe Deutsch. A artista, nascida em Viena no ano de 1926, foi desenhista do jornal o Estado de S. Paulo e participou de exposições em diferentes locais, como nos Estados Unidos, Japão, Itália e Brasil. No Parlamento, expõe a escultura “Totem I”, em terracota.

Domenico Calabrone (1928-2000) foi um escultor, pintor, gravador, designer de joias e cenógrafo italiano. Era especialista em técnicas de fundição, mosaico e cerâmica. Entre as premiações recebidas por ele, está o prêmio Internacional de Escultura Contemporânea, na Itália, e o 41º Prêmio Internazionale di Pinttura Cittá di Pizzo. É autor da escultura “O Caixeiro Viajante”, presente na Assembleia.

Também citado por Cecilia como referência, Arcangelo Ianelli (1922-2009) possui uma escultura de mármore intitulada “Forma Bi Partida” no jardim do Palácio 9 de Julho. Ele foi um pintor, escultor, ilustrador e desenhista autodidata. Estudou perspectiva na Associação Paulista de Belas Artes e teve contato com figuras como a pintora, professora e desenhista Colette Pujol, e com o pintor e professor Waldemar da Costa. Ianelli recebeu uma homenagem da Pinacoteca do Estado ao completar 80 anos, em 2002.

O jardim da Casa conta também com a escultura Flower Pot, de Romero Britto. O artista já pintou quadros para Michael Jackson, Madonna, Arnold Schwarzenegger, Bill Clinton, príncipe William e Kate Middleton. As obras externas estão passando apenas pelos processos de catalogação e registro fotográfico.

Fonte: Assembléia Legislativa de SP