Menina paraense de 15 anos presa em cela só com homens, em 2016 | O Democrata

Ué, falando sobre o passado, Julie?  Mais uma vez?

Não considero passado, minhas amigas, até porque este caso me veio à cabeça, quando li na imprensa tantos outros envolvendo agressões cruéis a mulheres, nos últimos dias. Dois deles se referem a estupro de mulheres presas em delegacia de polícia, por policiais – ambos estão sendo investigados, sendo que um policial já está preso.

Outro que chama atenção é de mulher separada, que volta da balada, e é espancada porque saiu por seu ex-companheiro. Como forma de se proteger, pede desculpa, diz que nunca mais vai fazer isso.

O que acontece conosco, minhas amigas?

O que fazem com o nosso corpo?

O que leva o homem a dispor de nosso corpo, vulnerabilizado, seja pela bebida ou droga, pela prisão, pela doença – há relatos de estupros em hospital; seja pela condição familiar: mulheres estupradas por seus companheiros, filhas por seus pais e irmãos, mulheres mortas por ex-maridos (a casa, segundo qualquer pesquisa sobre violência contra a pessoa do gênero ou do sexo feminino, não é lugar seguro); seja pela condição de trabalho: assédio no ambiente de trabalho é comuníssimo – inclusive no meio jurídico.

Por que desconfiamos da palavra da mulher quando se diz estuprada, mas não desconfiamos de sua palavra quando se diz roubada?

Por que nós mesmas, muitas vezes, duvidamos da palavra de nossas filhas, nossas amigas, fazemos pouco do sofrimento delas porque achamos que estão fazendo drama, estão “armando” para o namorado, para o companheiro?

O que vejo e leio sobre isto é que nós, mulheres, somos vistas sempre “em reflexo” da vontade masculina. Portanto, se estamos sob a órbita do poder masculino, então, é nosso dever submetermo-nos à sua vontade.

Este dever é entendido por muitas de nós e, por eles, como natural.

Assim, se estamos ou não de acordo com alguma coisa, não interessa nossa vontade – até porque nem de nosso corpo dispomos livremente. Estava bêbada; disse que não quer; estava dormindo não importa.

É a vontade do dono do poder que interessa.

Qualquer poder funciona desta maneira: político, econômico – se não há controle do poder, só a vontade de quem o exerce é a determinante.

Nós temos de entender que nós somos. Só somos.

Não somos mães, porque temos filhos com alguém, somos mães porque geramos; não somos esposas porque nos casamos, somos esposas porque queremos; não somos livres porque nos permitem, somos livres porque somos.

Quando entendermos isto de verdade, o poder será controlado.

Até lá, estamos juntas, porque queremos.

Julie Kohlmann é Doutoranda em Filosofia do Direito, Mestre em Direito Civil, Especialista em Direito Penal e Associada ao IBDFAM – @juliekohlmannadvogada

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