Não mexam com nossas gargalhadas escandalosas | O Democrata

Aos poucos, fui deixando de ser a netinha de minhas avós tão pouco sorridentes. As mulheres que fizeram parte da minha vida eram sérias, muito atarefadas.

Não tinham espaço na vida e na alma para sorrirem.

Muitos consideram admiráveis, daquele tipo que serve de exemplo para a nova geração: mulheres de casa, obedientes ao marido, mães exemplares e donas de casa impecáveis.

Como sinto por elas. Quanta tristeza.

Nenhuma delas soube o que era prazer, independência, conhecimento acadêmico, reconhecimento profissional. Não me lembro de uma gargalhada, piada, opinião ouvida com respeito.

Minhas mulheres eram silenciosas.

Esther, a mulher mais bonita de Botafogo (dizia meu pai), cerzia roupas de cama à noite para hotel, enquanto a irmã mais velha cuidava de seus quatro filhos, depois que meu avô, Werner, morreu de desgosto – por ver sua Alemanha ser consumida pelo nazismo e reduzida a frangalhos. Esther, seus quatro filhos e Emma (sua irmã mais velha) se alimentaram por anos, durante a infância das crianças, com arroz e sardinha – havia variações: arroz e salada.

Kessako, menina imigrante de 17 anos se casou com homem muito mais velho – 29 anos (se não me engano). O casamento foi arranjado e tiveram 07 filhos. Kessako viu dois de seus filhos serem mortos em São Paulo: o primeiro, assassinado em um acidente de trânsito.

Meu tio, passageiro, saiu para ver o que estava acontecendo com o amigo que pilotava o carro e morreu baleado na hora. O outro, já transplantado do fígado, morreu com úlcera supurada.

Minha avó não deu uma única palavra, um único grito. Só as lágrimas corriam pelo rosto.

Lembro-me de minha avó Kessako, com 87 anos, já internada na UTI, contando-me detalhes de sua escola primária. Queria ser enfermeira. Sua paixão pela escola era tão grande, tão intensa que nunca deixei de lhe prestar atenção. Eram detalhes de amor.

Mas minhas mulheres não sorriam, não gargalhavam, não faziam piadas. Não tinham um minuto de prazer, de alívio.

E hoje, quando leio críticas ferozes, desairosas, humilhantes, desrespeitosas contra mulheres comediantes, que fazem graça da falsa sisudez masculina e que constroem o espaço de graça para nós, mulheres cansadas, tristes, sós em nossas existências; juro que ouço minhas avós gargalhando juntas, pedindo mais, falando palavrões com todo gosto do mundo e pedindo para o garçom: desce mais uma, bem gelada!

Vamos gargalhar, minhas amigas, sempre mais alto: “o riso é uma forma de resistência”

Julie Kohlmann é Doutoranda em Filosofia do Direito, Mestre em Direito Civil, Especialista em Direito Penal e Associada ao IBDFAM – @juliekohlmannadvogada

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