Respeitem minha dor, por favor. E, se possível, peço solidariedade. | O Democrata

Minhas amigas,

Sinceramente, quando deixamos de entender que meninas não estão prontas para gerar?

Quando?

Quando nos tiraram esta certeza?

Quando passamos a duvidar que corpos de meninas não estão amadurecidos para gerar? Quando esquecemos do risco para a vida de qualquer menina a gravidez precoce?

Ruptura uterina, anemia, eclampsia, sequelas psicológicas e psíquicas de meninas não importam?

Como supor consentimento de uma menina de 08, 09, 10, 11 anos de idade? Que consentimento uma menina pode dar?

Grávidas, carregam em seus corpos imaturos a prova da violência mais covarde. Não consigo imaginar minha dor, se tivesse uma menina estuprada, grávida, em risco de vida.

O caso escabroso do estupro e da negativa de aborto legal da menininha de 11 (onze) anos não acabou. Ela e sua família não encontrarão paz tão cedo.

A promotora do caso, Mirela Dutra Alberton, pediu perícia do feto. O que ela quer saber, além de outras coisas, é como foi realizado o procedimento. Esta promotora, afastada há pouco, queria investigar a conduta de médicos que agiram a partir de decisão judicial. O procedimento vai continuar, apesar de a promotora estar afastada, no momento.

O crime de estupro contra esta menina continua em segundo plano. A dor desta menina, desconsiderada. O pavor, a confusão, as consequências físicas e psíquicas – nada disso importa.

Eu convivi minha vida inteira com meninas, meninos e adolescentes. Fui professora, desde os 18 (dezoito) anos. Sei o que é uma menina de 10/11 anos. Fui uma. Vejo meninas, converso com elas.

E entendo perfeitamente o questionamento de Amanda Klieman, psicóloga, dirigido à juíza, promotora, advogadas e advogados do caso, durante a audiência, disponibilizada pela imprensa: “Há entendimento claro, neste momento, de que se trata de um caso de violência sexual?” Contra uma menina de 11 anos? – complemento.

Por favor, permitamos que nossas meninas estupradas encontrem a paz possível. Porque, caso contrário, nós não mereceremos também.

Julie Kohlmann é Doutoranda em Filosofia do Direito, Mestre em Direito Civil, Especialista em Direito Penal e Associada ao IBDFAM – @juliekohlmannadvogada

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