Samba Lelê também tá com a cabeça quebrada – O Democrata

O desfile da Acadêmicos de Niterói neste Carnaval, no Rio de Janeiro, entrou para a avenida com a missão de encantar. Saiu dela promovendo um debate que extrapolou a Sapucaí e invadiu as redes sociais, os grupos de WhatsApp e, inevitavelmente, o campo jurídico-eleitoral.

A homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em pleno ano eleitoral, acendeu discussões sobre eventual propaganda política antecipada. Independentemente da interpretação técnica que se faça, o fato é que o foco do desfile — a festa popular, a celebração cultural, o espetáculo artístico — foi deslocado para um embate ideológico que nada tinha de carnavalesco.

O Carnaval, historicamente, sempre flertou com a crítica social. Isso faz parte da sua essência. Mas há uma diferença entre a crítica ampla, satírica, quase filosófica, e a adesão explícita a personagens e narrativas políticas em momento sensível do calendário democrático. Quando isso ocorre, o que deveria ser catarse coletiva se transforma em trincheira.

A apresentação incluiu referências depreciativas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, retratado como o personagem “Bozo”, em alegorias que mais pareciam peças de provocação do que metáforas artísticas. Também houve menções às famílias tradicionais — pai, mãe, filhos — tratadas de forma caricata como conservas “enlatadas”, um simbolismo que, para muitos, soou como desnecessário e ofensivo.

O resultado prático foi o oposto do que talvez se pretendesse. A escola acabou rebaixada para a segunda divisão do Carnaval carioca, e o debate artístico foi substituído por um ruído político que gerou mais desgaste do que aplausos. Criaram-se factóides, inflamaram-se ânimos e, no fim, confirmou-se uma velha máxima: Carnaval, política e religião até podem ser discutidos — mas a mistura dos três raramente termina em harmonia.

O problema maior, contudo, não está apenas na avenida. Está na constatação de que, ao longo das últimas décadas, a política ocupou todos os espaços da vida social. O que antes era ambiente de encontro e celebração hoje vira campo de disputa. A polarização deixou de ser fenômeno eleitoral e passou a ser comportamento cotidiano.

E o país? Passadas quatro ou cinco décadas, pouco avançou em termos de coesão social. Mudaram-se governos, alternaram-se ideologias, sucederam-se escândalos e promessas. O cidadão comum continua enfrentando os mesmos dilemas estruturais — agora acrescidos de mais intolerância, mais agressividade e uma sensação difusa de que a convivência se tornou mais difícil.

Talvez o episódio da Acadêmicos de Niterói seja apenas mais um sintoma desse tempo em que tudo precisa ser bandeira. Mas é sintomático que até o samba — símbolo maior da nossa identidade cultural — esteja sendo arrastado para a arena política.

Quando o tamborim vira palanque, a festa perde o compasso. E o Brasil, mais uma vez, sai desafinado.

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