Proprietário do primeiro jornal de São Roque, o jornalista e comerciante José Hyppolito da Silva faleceu no dia 2 de março de 1926, vítima de um acidente de carro quando viajava para o Rio de Janeiro.
O historiador Joaquim Silveira Santos registrou que José Hyppolito lançou “O Sãoroquense”, o primeiro jornal semanário da região, lutando “contra a indiferença de uns, o pessimismo e a má vontade de outros”, com a primeira edição circulando em 5 de outubro de 1902.
O periódico circulou até por volta de 1920, quando a publicação já não ocorria regularmente aos domingos. Nesse período, o jornal O Democrata (fundado em 1º de maio de 1917) consolidava-se na preferência dos são-roquenses, sob o comando dos irmãos Heitor (Rino) e Francisco Boccato, que trabalharam por vários anos na gráfica de “O Sãoroquense”.
Na edição de 7 de março de 1926, O Democrata estampou em manchete: “José Hyppolito da Silva”, com uma tarja preta acima do nome. “Mais uma vez o espírito público se sentiu abalado diante da triste ocorrência verificada no dia 2 do corrente, na Estrada de Rodagem São Paulo-Rio de Janeiro, mais ou menos nas alturas de São Miguel, em que o conhecido negociante desta praça sr. José Hyppolito da Silva saiu mortamente ferido”.
No início do século 20, uma viagem de carro entre São Paulo e a então capital federal poderia levar dias, passando por ruas de São Miguel Paulista e por outros bairros e distritos da Zona Leste da capital paulista. A rodovia Presidente Dutra só seria inaugurada em 1951.
“O senhor José H. da Silva contava com 47 anos de idade, aqui nascera e aqui levantou os seus primeiros ideais. Inaugurou a primeira tipografia da cidade, em 1902, e fundou “O Sãoroquense”, periódico importante do qual foi proprietário e diretor por 18 anos. Atualmente, era agente do jornal O Estado de S. Paulo. Sobre a triste e lamentável ocorrência, este matutino expressou a seguinte nota”, registrou O Democrata.

Grave desastre
“Na estrada de São Miguel, próximo à Penha, ocorreu ontem, às 11 horas, um grave desastre de automóvel que resultou na morte de um negociante residente em São Roque.
Trata-se do senhor José Hyppolito, de 47 anos, que viajava no automóvel número 18, chapa de São Roque, conduzido pelo senhor Paulino Hermílio de Campos [prefeito de São Roque de 1917 a 1921].
Esse automóvel, ao fazer uma curva, foi abalroado na parte traseira por um auto-caminhão número 91, chapa de Mogy das Cruzes, o qual vinha em excessiva velocidade.
O senhor Hyppolito, dada a violência do choque, foi precipitado do automóvel, sofrendo queda, fratura da base do crânio e perda de massa encefálica. O auto-caminhão, após haver causado o desastre, continuou sua marcha com maior velocidade ainda.”
“A vítima foi conduzida para esta capital, tendo passado pelo Posto de Assistência e ingressado logo depois no Hospital da Santa Casa, onde faleceu às 13 horas. Sobre o acidente foi instaurado inquérito na Polícia Central, por um comissário da 1ª Delegacia que ali se achava em serviço.”
Eram passageiros do carro número 18, além do propriedade do sr. Paulino H. de Campos, José de Mello Glória, Irineu de Campos Silveira, Josephina Verani da Silveira e o inditoso [alguém marcado pela má sorte] sr. Hyppolito da Silva.
O corpo chegou a São Roque no mesmo dia, às 16h30, sendo esperado na estação da Estrada de Ferro Sorocabana por parentes e grande número de amigos. O cortejo fúnebre seguiu até a Igreja Matriz, onde o reverendíssimo padre Affonso Pozzi, vigário da paróquia, fez a encomendação do corpo, sendo em seguida levado para o Cemitério Municipal.
No obituário, O Democrata registrou ramalhetes de flores naturais e as seguintes coroas enviadas por Carlota de Castro, Alice e filhos, cunhados Nicanos, Júlia e Hesmerandolina, Paulino, Zezinho e Irineu [pessoas que estavam no acidente], Renato Mota e família, Cia. Paulista de Artes Graphicas, A. Barroso e família, J. Moraes e família e pela esposa Maria Emília e os doze filhos.
“Nós que mourejamos [trabalhamos muito] nesta luta de imprensa e que cotidianamente notificamos o desaparecimento de vultos aos quais nos prendiam liames [vínculos] de amizade, jamais sentimos como agora a perda irreparável do colega e amigo, como também do chefe de família exemplar que era.”
José Hyppolito já havia viajado ao Rio de Janeiro em outra oportunidade. Em 1923, o Correio Paulistano publicou que ele seguiu no primeiro trem noturno em companhia de Paulino de Campos, motorista que conduzia o carro no acidente que resultou em sua morte em São Paulo.
Acidente em Santos
No dia 24 de abril de 1921, José Hyppolito envolveu-se em outro acidente de trânsito, registrado na Gazeta do Povo (Santos) na edição do dia seguinte, com o título: “Choque de dois autos; numerosos feridos”.
“Espalhou-se pela cidade a notícia de um grande desastre ocorrido às 18 horas, na Praia do Itararé, onde dois autos se chocaram espatifando-se e produzindo ferimentos em todos os seus passageiros.”
No choque, o comerciante são-roquense sofreu contusões sem gravidade nos braços e nas pernas. Na ocasião, Hyppolito estava hospedado na residência de José Ignácio da Glória, representante da firma Lage & Irmãos. Todos os feridos foram transportados para a Santa Casa de Santos, estando posteriormente fora de perigo. O delegado regional esteve no local, abriu inquérito e mandou de imediato cassarem-se as cartas dos dois chauffeurs.
José Mello da Glória, que cinco anos depois estaria no mesmo carro do acidente que matou José Hyppolito em São Paulo, regressou para Santos. Segundo a Gazeta do Povo, ele “aqui chegou após o falecimento de sua venerada progenitora, que, pelo grande abalo sofrido com o desastre de familiares, sucumbiu por volta das 23 horas”.
Vander Luiz

