Há uma frase célebre de Jesus Cristo que atravessa os séculos: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” Dizem que Ele pronunciou essas palavras segurando uma moeda — um lembrete sutil de que o dinheiro, no fundo, tem menos valor do que imaginamos. A moeda pertence ao mundo dos homens. A alma, esta pertence a Deus.
Talvez tenha sido essa lógica que moveu, há mais de um século, freiras, padres e leigos a erguer a Santa Casa de Misericórdia de São Roque. Não havia planilhas governamentais, secretarias ou convênios intermináveis. Havia caridade. Gente que doava tempo, trabalho, dinheiro e fé para cuidar de doentes que não tinham para onde ir.
O hospital nasceu assim: sustentado por doações, por gente que ajudava a pagar remédios, comida e despesas básicas de quem precisava de tratamento. Não era um sistema perfeito — nenhum é — mas tinha um motor poderoso: a consciência individual de que ajudar o próximo era um dever moral, não uma obrigação tributária.
Com o tempo, algo mudou. As doações rarearam. Não necessariamente porque as pessoas ficaram piores — talvez apenas mais exauridas. No Brasil, estima-se que entre 30% e 40% de tudo o que alguém produz acabe nas mãos do Estado, direta ou indiretamente. A pergunta incômoda surge quase sozinha: depois de pagar tantos impostos, quantos ainda conseguem exercer a caridade como antes?
Assim, pouco a pouco, aquilo que era sustentado por generosidade passou para a contabilidade pública. A filantropia virou convênio. A caridade virou rubrica orçamentária. A Santa Casa de Misericórdia de São Roque, que nasceu de doações e vocação religiosa, acumulou dívidas, entrou em colapso financeiro e passou a ser socorrida repetidas vezes pelo poder público.
No caminho, muita coisa se perdeu. A capela foi demolida em determinado momento, símbolo talvez involuntário de uma mudança mais profunda. O espírito de missão que animava aquelas paredes foi sendo substituído por processos administrativos, decretos e disputas burocráticas.
Agora, um novo capítulo se desenha: a prefeitura pretende tomar formalmente o prédio e transformar em papel aquilo que, na prática, já acontece — um hospital público municipal. A história não será apagada. As freiras que dedicaram a vida, os padres que organizaram a obra e os benfeitores que abriram suas carteiras continuarão pertencendo à memória da cidade. Mas algo essencial se encerra ali: o espírito que fez nascer a Santa Casa — a ideia de que a caridade, antes de ser política pública, era um compromisso da alma humana.
Redação.

