Durante décadas, a indicação de um ministro para o Supremo Tribunal Federal seguiu um roteiro conhecido. O presidente indicava, rolava uma “ilibada reputação”, e no final vinha a aprovação. Era um daqueles raros consensos nacionais.
Confesso aqui um pequeno bastidor desta quarta-feira. O editorial deste jornal já estava pronto. Escrito, revisado e pronto para ir para a gráfica. O texto partia do pressuposto lógico — e historicamente seguro — de que o indicado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Supremo, o advogado Jorge Messias, seria aprovado sem grandes sustos pelo Senado Federal do Brasil.
Afinal, era o “Bessias”, figura conhecida desde os tempos em que apareceu apressado no Planalto levando um documento para Dilma Rousseff.
Comissão de Constituição e Justiça do Senado havia aprovado seu nome. A máquina institucional brasileira rodava com a previsibilidade de sempre.
Foi então que aconteceu algo profundamente inconveniente para quem já tinha fechado o texto do jornal.
O plenário resolveu votar de verdade.
O resultado foi histórico. Pela primeira vez em décadas, um indicado ao Supremo foi rejeitado pelo Senado. Foi preciso fazer aquilo que todo jornalista conhece bem nos momentos raros em que a realidade resolve bagunçar o roteiro: gritar mentalmente “parem as máquinas”.
O episódio tem algo de surreal porque, tecnicamente, nada de extraordinário aconteceu. O Senado apenas exerceu uma prerrogativa que sempre esteve ali, escrita na Constituição, aguardando uso.
O espanto nacional decorre justamente disso. Durante tanto tempo o procedimento foi automático que o país passou a acreditar que a aprovação era inevitável.
Descobriu-se nesta quarta-feira que não era.
A rejeição de Jorge Messias produz um efeito curioso em Brasília. Ela devolve à política brasileira um elemento quase esquecido: a incerteza. Se o Senado pode rejeitar um ministro do Supremo, quem garante que outras peças desse arranjo institucional também não possam, um dia, sair do lugar?
Quem sabe o país descubra que ministros do Supremo também podem sofrer impeachment — instrumento que a Constituição prevê, mas que permanece guardado no mesmo armário das hipóteses teóricas.
Nesta quarta-feira houve algo raro. O roteiro falhou. O previsível aconteceu ao contrário. E um editorial pronto precisou ser jogado fora.
Espero que esse processo viciado por toda nossa república tenha finalmente sucumbido ao tempo como o antigo texto que estava.
Redação.

