Esta semana, a Anvisa determinou o recolhimento de lotes de detergente Ypê e parte da internet resolveu transformar o caso em ato de resistência política. Houve quem fingisse beber o produto e quem lavasse a louça apenas para deixar resquícios e tomar água em seguida, tudo para “provar” que a agência não merece credibilidade. Motivo? A empresa apoiou o PL de Valdemar Costa Neto em 2022.
O espetáculo revela, de forma quase caricata, o mal que nos mantém paralisados: o medo da mudança e a dificuldade de escapar da dicotomia Lula versus Bolsonaro, que já foi PT versus PSDB, e que no fundo mais mistura do que separa.
Vivemos como se o Brasil só pudesse escolher entre esses dois, como se não existissem outras opções. O sistema — jurídico, econômico e político — fica confortável com essa divisão e por isso as patrocina. Ela mantém as torcidas ocupadas, brigando entre si, enquanto as estruturas de poder seguem intocadas.
Nada muda se o filme recebe recursos públicos da Lei Rouanet, envolvendo nomes ligados à Lava Jato; ou se será patrocinado por recursos privados de instituições que sumiram com fundos de aposentadoria de prefeituras, estados e empresas públicas. Em ambos os casos, o contribuinte acaba, direta ou indiretamente, no meio da história.
Mas a torcida de cada lado grita que “é diferente”. Um é público, o outro é privado. No fim, o que falta nos dois lados é o mesmo ingrediente: honestidade.
Seria ótimo se pudéssemos usar esse detergente para fazer uma limpeza de verdade na política nacional. Tirar a sujeira acumulada, a gordura de anos e o mofo que insiste em manter o país preso nesse falso confronto. Porém, essa faxina não interessa a quem está no poder, nem aos donos do atual arranjo político.
Enquanto isso, o medo continua falando mais alto. Medo de questionar o jogo. Medo de admitir que os dois lados se alimentam do mesmo sistema. Medo de apostar em algo diferente.
O problema não é o detergente.
O problema é que, no fundo, muita gente tem medo mesmo é da vassoura.
Redação.

