Em 1946, inauguração do monumento a São Roque no Morro do Cruzeiro – O Democrata

São Roque no Morro do Cruzeiro, ao pé da Santa Cruz, é uma das referências da cidade, um olhar protetor do padroeiro e um dos principais pontos da estância turística. Inaugurado em 19 de maio de 1946, “um domingo de sol radiante”, o Monumento a São Roque ganhou destaque no Jornal O Democrata na edição do dia anterior. “A população de São Roque estará a postos amanhã, cooperando com a sua presença imprescindível, à majestosa inauguração do monumento com a imagem de nosso milagroso Padroeiro Senhor São Roque, que se ergue hoje soberbamente no Morro do Cruzeiro, vislumbrando toda a cidade como se fora um antigo presépio encrustado na grande bacia das montanhas que o rodeiam.”

Monumento a São Roque no Morro do Cruzeiro, inaugurado em 19 de maio de 1946, com iluminação custeada pela Estrada de Ferro Sorocabana.

O morro é chamado de Cruzeiro por ter uma cruz, algo comum na tradição católica para marcar presença religiosa, geralmente em pontos altos da localidade. Antes de ser levada para um dos pontos de maior destaque da cidade, a imagem de São Roque ficava no alto da fachada da antiga Igreja Matriz. Com a construção da nova matriz, foi retirada e guardada na Igreja de São Benedito. A ideia da construção da atual Igreja Matriz partiu do padre Cícero Revoredo, em 1929, mas as obras tiveram início somente em 1934, sob a coordenação do pároco monsenhor Silvestre Murari. A construção começou pelos fundos, com dois salões, e incluiu a demolição do altar principal. Em 1939, ocorreu o lançamento da pedra fundamental para a construção da fachada.

O Jornal O Democrata deu amplo destaque à inauguração, com várias reportagens e fotografias, algo incomum para a época devido ao alto custo dos clichês.

A imagem de São Roque foi levada para o Morro do Cruzeiro em 1º de dezembro de 1945, sendo oficialmente inaugurada em 1946, com uma extensa programação comandada pelo cônego Venerando Nalini. O Democrata manchetou que “Constituiu uma verdadeira apoteose a inauguração do Monumento a São Roque” e trouxe “pormenores do agradável acontecimento”.

A imagem de São Roque transferida para o Morro do Cruzeiro ficava na fachada da antiga Igreja Matriz. – Foto restaurada com IA

As festividades da inauguração tiveram um solene tríduo realizado ao pé do monumento na quinta, sexta-feira e sábado. No domingo, às 9 horas, uma comissão especial foi recepcionada no Parecá (restaurante em Maylasky que recebia os principais eventos da cidade). O dr. Luiz Domingues Sobrinho representou o diretor da Estrada de Ferro Sorocabana, Jarbas Trigo. Na chegada, recebeu uma taça de vermute oferecida por Aldo Pennone. Em companhia do prefeito Bernardino de Lucca, seguiu para a Praça da Matriz recebido pelas corporações musicais Liberdade, Sete de Setembro e Carlos Gomes, além de alunos do Grupo Escolar Dr. Bernardino de Campos, do Colégio São José e de associações religiosas.

Em procissão, os participantes seguiram até a estação ferroviária para a inauguração da iluminação do monumento, oferta da Sorocabana. Em seguida, subiram o morro para a celebração de uma missa presidida pelo cônego Venerando Nalini. No sermão, ele agradeceu ao cardeal-arcebispo Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, à Sorocabana, à família de Durval Villaça pela cessão do terreno para a construção, além do ex-prefeito Gentil de Oliveira, responsável pelo início da obra, e ao então prefeito Bernardino de Lucca.

Cônego Venerando Nalini durante a missa de inauguração do Monumento a São Roque; o prefeito Bernardino de Lucca acompanha a celebração. – Foto restaurada com IA

Após a cerimônia, a comitiva oficial visitou as instalações da Cia. Vinícola e Agrícola de São Roque e participou de um almoço íntimo oferecido pela Comissão das Obras, na residência de Thereza Emery de Castro, regado pelo insuperável vinho são-roquense Zumkeller. Para encerrar a programação, o prefeito ofereceu um delicioso café na Prefeitura.

À noite, “o nosso Monumento a São Roque foi conservado iluminado e foram soltos diversos fogos de artifício, finalizando-se um domingo tão feliz na vida social e religiosa são-roquense”. Apesar da ampla cobertura, O Democrata lamentou não dispor de maior espaço para descrever o evento “à altura de sua real grandiosidade”.

Na edição de 1º de junho de 1946, o jornal voltou a destacar a inauguração com a publicação de três fotografias, utilizando clichês cedidos pelo jornal A Noite, de São Paulo. Naquele período, os jornais publicavam poucas imagens devido ao alto custo dos clichês, geralmente confeccionados em alumínio, chapas gravadas em relevo que funcionavam como carimbos para impressão. O Democrata reproduziu na íntegra o discurso da senhorita Clary de Lima no dia da inauguração. Ela destacou a oportunidade de veneração ao padroeiro por parte dos moradores da cidade e dos romeiros, exaltando São Roque como apóstolo dos enfermos, amparo dos pobres e conforto dos encarcerados.

A iniciativa de levar a imagem para o Morro do Cruzeiro partiu de Umberta Pesci. “A ideia fulgurante e sublime da falecida e sempre lembrada dona Umberta Pesci coroou-se hoje de realidade para a elevação do nome de nossa terra”, escreveu Clary. Ela concluiu destacando a mobilização da comunidade — inclusive dos estudantes — para transportar todo o material de construção e o desafio de conduzir a imagem morro acima, com grande esforço físico e sem a utilização de equipamentos. “Uma profissão de fé dos devotos de São Roque, que somente as gerações futuras conseguirão perceber.”

Vander Luiz

Jornal O Democrata São Roque

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