Houve um tempo em que a Copa do Mundo transformava o Brasil numa espécie de condomínio emocional. Não um condomínio de verdade, porque brasileiro nunca teve muito talento para seguir regras de condomínio. Mas havia um acordo tácito. O sujeito da camiseta do Flamengo abraçava o corintiano. O eleitor de um partido abraçava o eleitor do outro. O vizinho que passava o ano inteiro reclamando do som alto passava a reclamar do juiz.
Era uma bagunça organizada.
As ruas ganhavam bandeirinhas. Algumas ficavam penduradas até o Natal. Outras sobreviviam bravamente até o Carnaval seguinte. O importante era que, durante a Copa, o país parecia compartilhar alguma coisa além dos boletos.
Hoje não tenho tanta certeza.
Talvez porque a camisa amarela tenha deixado de ser apenas uma camisa amarela. Ganhou significados extras. Virou uniforme ideológico. Há quem a use para fazer uma declaração política. Há quem se recuse a usá-la para fazer outra declaração política. E há quem só queira assistir ao jogo, mas acaba participando do debate mesmo sem autorização.
O resultado é curioso. O país do futebol conseguiu politizar o guarda-roupa.
A gente fala da lesão do Neymar e politiza o samba da Alcione e pagode do Belo, maltrata a tal da Virgínia sabe-se lá porque motivo e só pode torcer pelo cara depois de descobrir que número ele apertou na urna.
Talvez a culpa não seja da Copa.
Talvez nós sempre tenhamos sido assim.
Pode ser que aquela unidade nacional das Copas antigas existisse apenas porque não havia rede social para registrar cada desavença em tempo real. Talvez o tio do pavê já fosse insuportável em 1982. Apenas faltava uma plataforma para que ele publicasse sua análise geopolítica do impedimento.
A diferença é que agora tudo ficou visível.
O Brasil continua dividido como sempre esteve. A novidade é que hoje cada lado tem microfone, câmera, internet e certeza absoluta de que está certo.
Redação.


