Há momentos em que uma frase revela mais do que um discurso inteiro. Nos últimos dias, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a provocar polêmica ao associar crimes patrimoniais à ideia de quem “roubou para tomar uma cervejinha” e ao afirmar que “rico não compra coisa roubada, mas pobre adora uma coisa baratinha”.
Talvez, nos corredores refrigerados do poder, entre uma viagem oficial e outra a bordo de aeronaves da Força Aérea Brasileira, essas declarações pareçam apenas comentários informais. Para quem vive a realidade das ruas, porém, elas soam como um tapa no rosto.
O brasileiro comum não enxerga o furto como uma travessura motivada por uma cerveja. Enxerga a janela arrombada, a moto levada da garagem, a ferramenta desaparecida que garantia o sustento da família. Não vê romantismo algum quando o patrimônio conquistado após anos de trabalho desaparece em poucos minutos.
Da mesma forma, atribuir ao pobre uma suposta atração natural por produtos roubados é um raciocínio que beira o preconceito social. A esmagadora maioria da população humilde acorda cedo, enfrenta transporte lotado, trabalha duro e faz malabarismos para fechar as contas do mês. Ser pobre nunca foi sinônimo de ser conivente com a criminalidade.
Enquanto isso, convivemos com uma realidade cada vez mais preocupante. Invasões de residências, furtos, roubos e episódios de violência armada deixaram de ser notícias distantes dos grandes centros. São ocorrências que entram na conversa do café da manhã, nos grupos de WhatsApp dos bairros e nas preocupações das famílias.
O problema não está apenas nas frases. Está no que elas revelam. Existe uma distância crescente entre quem governa e quem vive as consequências da insegurança pública. Quando autoridades relativizam crimes ou fazem generalizações sobre os mais pobres, passam a impressão de que não compreendem a dimensão do problema.
O cidadão que instala câmeras em casa, reforça portões, paga seguro quando consegue e vive com receio de ser a próxima vítima não quer explicações sociológicas para o criminoso. Quer proteção. Quer policiamento eficiente. Quer justiça funcionando. Quer poder sair e voltar para casa sem medo.
A política tem o dever de interpretar a realidade, não de caricaturá-la. E a realidade do brasileiro, hoje, está muito longe da descontração sugerida por certas declarações. Quem perdeu um celular, teve uma residência invadida ou ouviu tiros perto de casa sabe que não há nada de pitoresco nisso.
Quando o poder fala sem medir as palavras, corre o risco de revelar aquilo que muitos já suspeitam: que existe um abismo entre Brasília e a rua. E, nesse abismo, quem continua pagando a conta é o cidadão comum.
Redação.


