A Festa de São Roque segue, há mais de cem anos, um roteiro básico formado pela novena, Entrada dos Carros de Lenha, bando precatório, quermesse com barracas e atrações artísticas, bandas de música, mas sempre com as procissões ocupando papel de destaque.

O centenário arquivo do Jornal O Democrata mostra as mudanças realizadas ao longo das décadas. São alterações pontuais, algumas de maior impacto, mas sempre implantadas de forma gradual. O pároco Adilson Dias Rampaso compara esse processo ao comando de um transatlântico: qualquer mudança de rota precisa ser planejada.
“Tudo aquilo que temos na paróquia e que precisa de mudança, buscando um novo caminho, deve ser feito com paciência. Já vimos que algumas mudanças são necessárias, mas elas precisam acontecer de forma lenta. Se isso acontecer com muita rapidez, acabamos nos machucando e também machucando outras pessoas.”

Neste ano, a principal novidade será a utilização de uma réplica da imagem de São Roque durante as procissões. A medida busca preservar o patrimônio histórico e religioso da paróquia, já que a imagem original apresenta rachaduras e também ficará protegida de eventuais atos de vandalismo. Outro detalhe, que talvez passe despercebido pela maioria dos fiéis, é evitar que o nicho principal da Igreja Matriz, um local de profundo respeito, seja pisado durante a retirada da imagem do padroeiro.
O Arquivo Vivo recortou algumas publicações do centenário acervo do Jornal O Democrata para mostrar como a festa foi se transformando ao longo das décadas. O dia 15 de agosto, por exemplo, era dedicado ao Divino Espírito Santo, inclusive com festeiros específicos para o Divino e São Roque. Em 1969, com a adequação do calendário religioso e a mudança da Festa do Divino, um dos casais passou a ser festeiro de Nossa Senhora da Assunção. Em 1972, voltaram os festeiros do Divino e, a partir de 1973, os dois casais passaram a ser festeiros de São Roque.

A própria estrutura da Igreja passou por mudanças. A Paróquia de São Roque era ligada diretamente à Arquidiocese de São Paulo. O cardeal-arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns esteve diversas vezes na cidade. Posteriormente, a paróquia passou a integrar a Região Episcopal Oeste 2 (Osasco), da Arquidiocese de São Paulo, até a criação da Diocese de Osasco, em 1989. Embora oficialmente as festividades terminem no dia 16, a programação continua no dia seguinte com a Missa dos Enfermos. Houve um período, porém, em que o dia 17 era dedicado também à procissão de São Cristóvão, padroeiro dos motoristas, com festeiros próprios. Em 1966, foram João de Almeida, Francisco Pedro Rabechini, Antonio Belmont, Benedito Honório Miero e Argeu Villaça Filho. Durante alguns anos, ocorreu a procissão de São Jorge alguns dias antes da procissão de São Roque.
A Entrada dos Carros de Lenha também passou por transformações. O evento tornou-se um desfile folclórico para preservar a tradição do homem do campo, com a lenha transportada em carros de boi e carroças. Com o desaparecimento dos veículos de tração animal na região, a solução encontrada foi convidar carreiros de Cambuí (sul de Minas Gerais) que há mais de 30 anos participam do desfile para manter viva a tradição. A iniciativa, entretanto, já alvo de críticas de entidades de defesa dos animais. Os caminhões também deixaram de participar do desfile, inclusive o histórico GMC da família de Sidônio Pereira Leite.
Outra mudança ocorreu no almoço oferecido aos carreiros. Inicialmente realizado após o desfile, passou a acontecer uma semana antes do evento. Atualmente é servido no Colégio São José, mas já foi realizado no Restaurante Jussara (Recinto da Festa do Vinho), na sede do Rotary Club, no Bar Paulistano (Avenida João Pessoa), entre outros locais.
Há 60 anos, em 1966, o Jornal O Democrata registrava a participação das imagens de outros santos e os resposáveis pelos andores. Nélida Traversa e Domingos Chiavone enfeitam o andor de São Roque; Ricieri Antonio Zandoná e esposa, o andor do Divino Espírito Santo. Os responsáveis pelas barracas eram apresentados na programação oficial. Entre eles estavam Lázaro Benedito de Andrade (churrasco), Oscar de Oliveira Abreu e esposa (São Jorge, barraca dos cavalinhos) e Néro Perino e esposa (São Cristóvão, automovinho/carrinho de brinquedo à pilha utilizada para o sorteio de rifas). Outras novidades foram incorporadas ao longo do tempo, como os tapetes ornamentais nas ruas, iniciativa de Vasco Barioni implantada em 1975. Hoje, questiona-se o barulho da queima dos fogos de artifícios prejudicando pessoas especiais, idosos e animais. Por sinal, outra novidade deste ano é a benção dos animais de estimação no próximo domingo (9), às 10h30.
Esses são apenas alguns registros de uma forma muito superficial do acervo do Jornal O Democrata, justamente no momento em que São Roque se prepara para viver mais uma edição da festa do padroeiro, marcada pela devoção dos fiéis, pelos shows, pela gastronomia e pelos reencontros entre familiares e amigos.
Fica também a mensagem do pároco Adilson Rampaso, lembrando que o exemplo de São Roque não deve ser vivido apenas durante os dias de festa. “A espiritualidade não é apenas um momento que se celebra, mas uma realidade contínua em nossa vida. Quando celebramos apenas esse momento forte, que depois passa e desaparece, temos apenas uma festa. E aí não existe espiritualidade, apenas uma emoção. A espiritualidade está acima da emoção.”
Vander Luiz


