Altar-mor e relógio: dois marcos da Igreja Matriz de São Roque – Jornal O Democrata

A Igreja Matriz de São Roque é a principal referência das Festas de Agosto, realizadas em comemoração do aniversário da cidade e em louvor ao padroeiro. É também o período em que moradores e visitantes passam a observar com mais atenção os detalhes do templo, cuja construção começou a ganhar forma em 1934 com o pároco Monsenhor Silvestre Murari.

Inauguração da pintura do altar-mor da Igreja Matriz de São Roque, em 7 de agosto de 1954

A ideia de substituir a antiga Igreja Matriz surgiu com padre Cícero Revoredo, que assumiu a paróquia em 1929. Cinco anos depois, em 1934, tiveram início as primeiras intervenções para viabilizar a nova igreja. Nos fundos do templo começou a construção do salão paroquial, em terreno cedido pela Prefeitura de São Roque. Ao mesmo tempo, foi iniciada a demolição do altar-mor (altar principal de frente para a porta de entrada), da sacristia e da sala de espera da antiga igreja, marcando o início de uma das mais importantes transformações da história religiosa e arquitetônica do município.

Esboço da pintura em que São Roque recebe a comunhão na prisão

Foram várias etapas até a conclusão da fachada e da nova torre. Em 1954 ocorreu um dos momentos mais importantes dessa trajetória, com a conclusão da pintura do altar-mor pelos irmãos Pedro (1903/1968) e Ulderico Gentili (1911/1984), que trabalharam em várias igrejas, entre elas: Imaculada Conceição (São Paulo), Santo Antônio (Santos) e Nossa Senhora Achiropita (São Paulo). Ulderico é avô do humorista e apresentador Danilo Gentili. O Arquivo Vivo resgata a reportagem de primeira página sobre a “Inauguração da pintura do altar-mor da Igreja Matriz”, ocorrida no dia 7 de agosto de 1954.

No outro lado do altar, anjo do Senhor oferece pão e água ao profeta Elias

“Observamos em nossa cidade um espetáculo inédito, maravilhoso e, por que não dizer, divino! A inauguração da pintura do altar-mor da Igreja Matriz de nossa querida cidade, em cujo templo se rendem as mais justas e sinceras homenagens cristãs ao nosso glorioso padroeiro, o milagroso São Roque. A Igreja estava repleta de fiéis e, no momento em que foi descerrado o pano que vedava o altar-mor da igreja, um quadro deslumbrante de beleza apareceu ante os olhos dos fiéis que enchiam o templo…”

Relógio da Matriz inaugurado na noite de Natal de 1940

“Os quadros que adornam as paredes laterais são magníficos. De um lado, São Roque no cárcere recebendo a Sagrada Comunhão e, do outro, o profeta Elias, cansado, sem forças, adormecido aos pés de uma frondosa mangueira, quando lhe aparece um anjo vindo das alturas celestiais, trazendo-lhe um pão para mitigar a fome, que o alimentou por quarenta dias. Em plano inferior ao nicho, no altar-mor, dois anjos, com as asas abertas, mantêm guarda à imagem do padroeiro.”

Danilo Gentili já compartilhou link de reportagens do trabalho do avô Ulderico e do tio-avô Pedro

Para esse momento religioso e artístico, a escolha dos festeiros de São Roque de 1954 não poderia ter sido outra senão dois artistas da cidade: Vasco Barioni e Murillo Silveira, acompanhados de suas respectivas esposas, Inês Ribeiro Lopes Barioni e Rosa de Oliveira Silveira. Vasco e Murillo tornaram-se grandes amigos dos irmãos Gentili, que passaram alguns anos na cidade executando a pintura completa do interior da Igreja Matriz. Nesse período, o vigário era Frei Telésforo do Menino Jesus, durante a administração da paróquia de São Roque pela Ordem dos Carmelitas Descalços (Seminário do Marmeleiro).

Igreja da Matriz de São Roque: relógio inaugurado na noite de Natal de 1940

Em 2018, na novena do dia 13 de agosto, a família Silveira entregou ao arquivo da Igreja Matriz os esboços das pinturas laterais feitas pelos irmãos Gentili e uma folha de papel com a anotação dos pagamentos realizados aos pintores entre 1954 e agosto de 1956. Os serviços foram contratados por 550 mil cruzeiros, com o acréscimo de 150 mil cruzeiros pela pintura da sacristia. Um papel simples, sem assinaturas ou documentos pessoais, demonstrando a confiança entre as partes, no fio do bigode, como se costumava dizer.

RELÓGIO INAUGURADO EM 24 DE DEZEMBRO DE 1940

Outra referência da Igreja Matriz é o relógio instalado no alto da torre. Na coluna desta semana, o destaque é exclusivamente para o relógio. Os sinos da Igreja Matriz serão tema da próxima edição.

Na edição de 28 de dezembro de 1940, o Jornal O Democrata publicou a reportagem “Solenemente inaugurado o relógio de quatro faces da Igreja da Matriz”. A inauguração ocorreu exatamente à meia-noite de 24 de dezembro, marcando a chegada do Natal, momentos antes da Missa do Galo.

“Realizou-se com a maior solenidade e geral satisfação o ato inaugural do belo e moderno relógio, instalado na imponente torre, recém-construída, da nossa Igreja Matriz… O Largo da Matriz apresentava fisionomia de grandes festas. As excelentes corporações musicais 7 de Setembro, Liberdade e Carlos Gomes deram nota de destaque. E ao pé da Matriz, junto às obras, foi organizado um bem servido bufê, bastante concorrido.”

Foram escolhidos onze casais de paraninfos (não necessariamente marido e mulher) e um devoto de São Roque: Júlio Arantes de Freitas e D. Paulina de Campos; Dr. João Gabriel e Maria Emília Rocha Morais; Raimundo Francisco Leite e Amélia Tagliassashi; José Silvestre Rocha (Juca Rocha) e senhora; Márcio Reis e senhora; Eduardo Vieira de Camargo e senhora; Giovani Alé e senhora; Reinaldo Verani e senhora; Antonino Dias Bastos (Nino) e senhora; Napoleão Laurenciano e senhora; Oscar Silva e senhora.

“Ao som de alegres números musicais e do espoucar de fogos, foi desvelado o relógio, que logo depois soava, pela primeira vez, a hora última do dia: meia-noite, indicando o momento máximo da cristandade: o Natal.” O pároco José Lafayette Ferreira Álvarez disse, em meio ao povo que enchia a praça: “Depois de dois anos de profundo silêncio, o coração mecânico da cidade do grande vale volta a marcar os instantes decisivos desta boa gente.”

Vander Luiz

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