Em 2010, Tiririca foi eleito deputado federal com um bordão que entrou para a história da política brasileira: “pior do que tá, não fica”. Ficou. E muito. Naquele momento, o eleitor parecia ter encontrado uma maneira divertida de mandar um recado aos políticos. Se Brasília era um circo, por que não mandar um palhaço para lá? A brincadeira rendeu votos, abriu as portas para uma coleção de artistas, cantores, ex-BBBs e celebridades de ocasião e, de quebra, ofereceu aos partidos uma oportunidade que eles jamais desperdiçariam: usar a fama alheia para aumentar a própria bancada.
Convém fazer justiça. O problema nunca foi simplesmente o Tiririca, o cantor ou o artista que resolveu disputar uma eleição. O problema estava também nos caciques partidários, sempre atentos a qualquer expediente capaz de lhes render mais alguns deputados. O eleitor votava no personagem, mas quem comemorava a ampliação do poder era o dono do partido. A indignação popular, transformada em piada, acabava servindo à velha política. Uma ironia e tanto.
Pois o voto de protesto parece ter mudado. Nesta eleição, Tiririca ficou de fora. O Caneta Azul ficou de fora. A Menina da Bota ficou de fora. Datena também não conseguiu entrar. A celebridade que imaginava carregar para as urnas a popularidade conquistada em outra atividade já não encontra, necessariamente, a mesma receptividade. E não adianta encher a lista com quem já tem carreira política e disputa a reeleição. A questão aqui é outra: o eleitor parece menos disposto a transformar qualquer rosto conhecido em representante parlamentar.
Só que o protesto não desapareceu. Talvez tenha apenas trocado de roupa. Em vez de votar em quem fazia piada com a política, uma parcela do eleitorado passou a escolher quem faz política nas redes sociais, ainda que muitas vezes com a mesma linguagem de confronto, provocação e espetáculo. Lucas Pavanato, Eduarda Campopiano e outros nomes que construíram sua projeção na internet ajudam a ilustrar essa mudança. Erika Hilton, Jones Manoel e Ana Elisa, com uma trajetórias e perfis diferentes, também mostra a força que a comunicação digital pode alcançar quando associada a uma identidade política bem definida. Não são todos iguais, nem devem ser colocados no mesmo saco. O que os aproxima, nesse contexto, é a importância da presença pública e da capacidade de mobilizar seguidores.
É uma mudança interessante, mas não necessariamente uma boa notícia por si só. Antes, bastava ser famoso. Agora, pode bastar ser famoso falando de política. O eleitor que acompanha um influenciador todos os dias, concorda com suas opiniões e compartilha suas indignações pode enxergar nele uma representação mais próxima do que encontra nos partidos tradicionais. Há nisso uma possibilidade de renovação, mas também um risco conhecido. Trocar o palhaço pelo polemista não garante que o espetáculo termine. Às vezes, muda apenas o figurino.
O resultado dessa transformação ainda precisa ser medido pelo trabalho de quem foi eleito. Curtidas não fiscalizam contratos, vídeos virais não elaboram leis e seguidores não substituem responsabilidade. O mandato exige mais do que capacidade de provocar o adversário e conquistar aplausos da própria plateia. A política, afinal, não é uma extensão da seção de comentários das redes sociais.
O voto de protesto mudou, ao que tudo indica. Resta saber se amadureceu. Em 2010, uma parte do eleitorado votou para rir da política. Agora, parece preferir candidatos que expressem suas convicções e suas revoltas. É um passo diferente, mas ainda não sabemos se é um passo adiante. O velho bordão de Tiririca continua rondando Brasília, com uma diferença: desta vez, ninguém precisa fazer piada para descobrir que o pior pode ficar pior.
Redação


